Escutar e Observar

  • 16 Abril, 2017

O dia estava vivo, o sol brilhava ofegante e reflectia nos meus olhos através das ondas. Aquele era um prazer que eu não perdia por nada deste mundo: caminhar pela praia. Mas naquele dia algo me prendeu e detive-me por uns instantes a olhar o mar e o ondular das ondas. Não tinha consciência do que me detinha ali, mas a pouco e pouco o meu olhar foi-se focando em algo que parecia brincar com as ondas. Quando voltei definitivamente a mim o meu campo de visão estava fixo nas ondas que se formavam e que se enchiam de surfistas. Se tive consciência disso era porque tinha algo a aprender e resolvi observá-los. Passado algum tempo estava mesmo atraída pelo modo como cada surfista tratava as ondas e como decidia o momento de as apanhar. Interessante como cada surfista era diferente no momento da decisão e como se comportam quando essa mesma decisão é tomada. Uns esperam, esperam, esperam e quando decidem até fazem um lindo serpenteado nas ondas, parecendo até bastante fácil fazer surf. Outros esperam e apanham uma onda que julgaram a melhor, deslizam uns metros e caem ou a onda desfaz-se e lá vão rapidamente tentar outra onda. Outros parecem mais afoitos e vão a todas ou passam em frente a outros, atrapalhando-os no momento em que se envolviam com a onda. Outros ainda esperam, observam colocam-se na prancha e caem. À medida que observava não pude deixar de pensar no que faria no lugar deles. O que levaria cada um a tomar a decisão de apanhar determinada onda? Tentei meter-me na pele de cada um e percepcionar o que sentiam no momento da tomada de decisão de se colocarem em cima da prancha e apanhar determinada onda. Lembrei-me do filme sobre um jovem surfista Jay Moriarity, que com apenas 15 anos surfou em Mavericks, onde só os mais experientes se atreviam. Ele tornava o surf um show, tudo parecia fácil para esse jovem surfista.

Envolto nestes pensamentos retorno à minha caminhada, mas coincidência ou talvez não, os meus ouvidos começam a prestar atenção ao diálogo atrás de mim.

Um jovem de cerca de 10 anos com uma prancha de surf nas mãos caminha ao lado do seu treinador, muito contente com a sua performance dessa manhã. O diálogo entre ambos faz-me sorrir interiormente, fazendo-me recordar o que acabara de observar momentos antes e as últimas semanas de prática da Energia Biogravitacional do módulo Conexão Espinal. Praticando entre pares, em grupos de 3 ou de 4 pessoas, cada um com uma função específica, aprendemos como a postura individual de cada um era determinante para o desfecho da resolução das questões levantadas. Tinha aprendido o verdadeiro papel do observador e da sua importância, bem como despertar a capacidade de escuta e observação que precisamos de assumir em cada função, na realidade sentir-me segura quando liderava e quando era liderada.

O jovem comentava com o treinador que estava muito contente pois conseguiu sair das espumas, ter mais estabilidade em cima da prancha e apanhar algumas boas ondas. A resposta do treinador foi incisiva e reveladora do que se teria passado nessa manhã no mar.

– Pois foi, muito, muito bom, e você sabe porquê?

O jovem estava tão contente que pareceu não ter ouvido a pergunta do seu treinador, a excitação e a felicidade transbordava por cada poro da sua pele e evaporava-se inconsequentemente no ar, repetindo as maravilhas que tinha executado em cima da prancha. O treinador insistia e repetia a pergunta:

– E você sabe o que aconteceu hoje para que fizesse o que fez e estar tão contente com o seu desempenho?

– Eu hoje consegui sair das espumas e ir mais longe, foi bom não foi? – replicava o jovem surfista insensível à pergunta do mestre.

– Sim, foi muito bom e se fizer sempre o que fez hoje, vai melhorar ainda mais.

– Mas o que foi que eu fiz? – perguntava o jovem, visivelmente impaciente com o seu treinador.

O treinador com toda a calma explicava-lhe que hoje ele soube escutar e observar, e sempre que ele tinha essa atitude tudo corria bem, e quando ele não mantinha o foco nesses aspectos, distraindo-se, os deslizes aconteciam e a aprendizagem era menor. E com enorme paciência lá ia reforçando que se ele fizesse sempre o que tinha feito hoje, os resultados seriam surpreendentes – «escuta e observa e verás que os resultados serão bem melhores, lembre-se do que fez hoje e aperfeiçoe» – repetia pacientemente para o seu promissor aluno.

Observar sem intervir é uma das tarefas mais difíceis, todos têm opiniões sobre tudo e qualquer assunto. Escutar torna-se cada vez mais um acto de heroísmo. No nosso quotidiano escutar e observar torna-se vital para reunir informações que provavelmente nem conheceríamos, nem prestaríamos atenção. Para decidir em consciência estas atitudes são vitais.

Aprender a escutar e a observar torna-nos mais pacientes. É provável que consigamos ter uma visão mais ampla da realidade e decidir mais de acordo com o que precisamos, em vez de decidirmos tendo como base a ilusão do que supomos querer. Estarmos mais presentes e percepcionarmos verdadeiramente o que significa o aqui e agora.

Toda a abertura, empatia e acolhimento necessários para escutar encontram solo fértil para crescer quando existe a disponibilidade para aprender e a vontade para elevar a nossa consciência, tornando coisas simples da nossa vida verdadeiras nascentes de aprendizagens.

Por: Paula Bravo e Paulo Pais