O Entusiamo na Idade Adulta: condição natural ou desafio?

  • 23 Janeiro, 2017

   Quando foi a última vez que se divertiu a observar as formas das nuvens? Lembra-se quanto tempo passou desde a última vez que cantou divertido com os amigos? Ainda anda a contar os passos que dividem as divisões da sua casa como quando era miúdo?  Quantos dias por semana acorda cheio de energia, animado pelas descobertas que irá fazer ao longo do dia? Acha que a sua vida é caracterizada pela leveza e a espontaneidade ou, pelo contrário, nem sequer se consegue reconhecer nestas simples situações?

   Por favor, feche os olhos por um instante e imagine-se na situação de viver intensamente um momento em que esteja dedicado à sua atividade preferida… algo que lhe traga uma sensação de bem-estar e satisfação interior (cozinhar, fazer jardinagem, pintar, caminhar, tocar música, brincar com as crianças, etc.).

   Agora, abra os olhos e pense no que aconteceu. Seja honesto consigo, e observe a sua própria reação.

   Conseguiu viver aquele momento especial sem dificuldades e até está a planear concretiza-lo em breve? Ótimo! Isso significa que as responsabilidades da idade adulta estão a ser acompanhadas por uma atitude jovial e consegue vivenciar o entusiasmo com bastante naturalidade, através de um genuíno sentido de abertura e curiosidade para a vida! Se continuar assim, todos os dias serão para si uma descoberta e o seu espírito se manterá vital, curioso e flexível perante as novidades.

   Todavia, é bastante provável que o exercício de visualização tenha provocado algumas dificuldades, entre as quais: já não se lembra daquilo que realmente gosta de fazer; conseguiu se lembrar da sua atividade preferida, mas não da última vez que em que a realizou; acha que já não tem tempo livre para isso e, consequentemente, nem sequer conseguiu fechar os olhos, pensando na quantidade de tarefas que cada dia é obrigado a desempenhar, lamentando a sua condição.

    Antes de mais, deixe-me dizer que a idade adulta é só uma das muitas fases de vida de uma pessoa, tal como são a infância, a adolescência e a idade mais madura. Qualquer uma delas tem os seus tesouros, as suas mais-valias, tanto quanto as suas dificuldades e os seus momentos de crise.

As etapas e as fases da vida são vividas de formas diferentes de pessoa para pessoa. Uma prática de bom senso seria o não comparar a nossa própria experiência com a dos outros, e, igualmente importante, seria evitar o mau hábito de termos expectativas acerca daquilo que iremos experienciar em cada uma dessas fases. Atuando desta forma só iremos fechar-nos perante os eventos, limitando a nossa capacidade de nos surpreendermos e experienciar o entusiasmo face aos acontecimentos do nosso dia-a-dia.

   Agora, por favor, volte a fechar os olhos mais uma vez e responda a esta pergunta: “O que é, para si, ser adulto?” e, “Como gostava que fosse a sua idade adulta? O que imagina, o que vê?”.

   Feito isso, analise agora a distância que existe entre a imagem que lhe apareceu e a sua vida real. Quanta maior for a distância, maior será o trabalho que terá de fazer para adequar a imagem à sua realidade. Por mais difícil que pareça, insista, porque com as mudanças necessárias poderá conseguir viver exatamente aquilo que visualizou, ou ainda mais.

   Se nos o permitirmos, o dia de ontem foi o dia em que crescemos um pouco mais do que anteontem. O dia de amanhã será um dia em que seremos um pouco mais crescidos do que hoje. Nós crescemos todos os dias, nunca paramos. Crescer significa desenvolver-se, significa aprender, significa passar por um processo por vezes difícil no qual, contudo, no fim, prevalece o valor da descoberta, das novidades, graças a uma natural disponibilidade para que isso aconteça. É muito fácil observarmos isso nas crianças: elas são uma fonte inexaurível de entusiasmo, energia, criatividade e pureza.

   Se nós achamos que já sabemos tudo só pelo simples facto de sermos adultos, e talvez já sermos pais, tios ou avós, infelizmente, estamos a enganar-nos.  Ao fazer isso, estamos a bloquear o nosso desenvolvimento enquanto pessoas e, ainda mais, a pôr em causa o nosso entusiasmo, esquecendo-nos dele e do quão importante ele é para nós e a nossa saúde física, energética e mental.

   Se esse for o nosso caso, então, o entusiasmo na idade adulta representa um verdadeiro desafio para nós, porque:

– não nos lembramos da sensação de fazer as coisas com gosto (sem nos importarmos com opinião dos outros, por exemplo, se acharem que aquilo que gostamos é banal, infantil ou fora de moda);

– Não nos levantamos cheios de energia para ir trabalhar, onde todos os dias parecem iguais (mas, a um olhar e uma atitude mais atenta e aberta, de facto, não são);

– Não aproveitamos a ida à escola dos miúdos para partilharmos uns momentos alegres e divertidos com eles (em vez de correr e precipitarmo-nos até lá com nervosismo e ansiedade);

– Não tratamos das tarefas domésticas com amor e dedicação (em vez de que com frustração e impaciência);

– Não preparamos todos os dias pequenas surpresas para os nossos amigos e familiares (em vez de reclamar acerca deles).

    Para concluir é preciso dizer que nós também fomos crianças e que ainda estamos em fase de crescimento, porque, de facto, ainda estamos a aprender. Se o nosso entusiasmo se encontra enferrujado, é sempre possível renová-lo em poucos passos:

– Fazemos tudo como se fosse uma novidade;

– Observamos e agradecemos cada nova pequena aprendizagem que conseguimos fazer dia após dia;

– Redefinimos e reprogramamos as nossas prioridades e rotinas para dar mais espaço às nossas atividades preferidas;

–  nunca ficarmos desanimados ou aborrecidos caso nos pareça que não estamos a conseguir termos de volta o nosso entusiasmo. Caso isso aconteça, bastará observar uma criança a brincar para nos inspirarmos outra vez: aprendemos com ela! A criança a brincar não está a pensar no “depois”; só está focada no seu jogo, está completamente dedicada a ele; se surgir um problema pede ajuda ou encontra uma forma simples de ultrapassar o obstáculo; está satisfeita e acredita nela própria tanto como naquilo que faz, conseguindo aprender a ser, a estar e a fazer tudo de uma vez.

   Um adulto cheio de entusiasmo é um bom exemplo para quem, um dia, também será adulto e se poderá lembrar que, efetivamente, o entusiasmo não tem idade!

Por: Sara Di Chiazza