O Meu Melhor Amigo

  • 8 Outubro, 2017

Sendo que cada um é como é, também é certo todos vivemos onde queremos viver. Há pessoas que vivem no ressentimento, outras na raiva ou no ódio ou naturalmente não conseguem perdoar. Eu, simplesmente, tenho medo.

Medo de quê? Não sei, penso que de tudo. Medo de não ser boa o suficiente, de provocar incómodo ou irritação, de ser julgada, de ser criticada, de ter uma opinião diferente, de não ser aceite tal como eu sou, e por essa mesma razão, acabei por sacrificar a minha própria natureza e a mim própria.

As máscaras foram as minhas melhores amigas, através das quais consegui quase sempre ser aceite, aparentemente respeitada, isto claro tendo por trás uma subtil e omnipresente ansiedade mascarada de sentido de humildade e partilha. Consegui sempre me destacar, pela bravura, pelo desempenho e pelos bons resultados. Aprendo rapidamente, nunca “chumbei”, nunca tive más notas, consegui alcançar sempre os objectivos que eram esperados por mim. Por saber falar e gostar de o fazer, regularmente pediam-me para representar os grupos de que fazia parte, de defender uma ideia inovadora perante as opiniões discordantes, armada de sentimentos como – o bem comum, o bem-estar da coletividade, etc. Nunca fui última em nada, mas mesmo assim, a minha vida privada está repleta de episódios conflituosos, especialmente nas relações.

Tendo eu medo do medo, acabei por me adaptar àquilo que era esperado de mim, sem questionar, no fundo, o que eu própria desejava para mim. Não me identificava muito com grupos, fossem eles de amigos, de trabalho ou de desporto, não por querer ser diferente, mas essencialmente por achar que algumas coisas de mim não iriam ser compreendidas ou mesmo aceites. Assim, passei a silenciar a minha paixão pelos mistérios, a curiosidade de saber o que existe para além da morte, se existe realmente uma alma e como funciona, as alterações no meu corpo consoante as coisas que comia ou fazia, que não sabia explicar objectivamente mas que não podia deixar de observar, e que, como é óbvio, nunca comentei com ninguém.

A vontade de me adaptar ao mundo que me rodeava levou-me a abandonar aquilo que mais me interessava e passei a partilhar os interesses dos meus amigos. Apesar de tudo, cresci rodeada de muitas pessoas mas com a consequência de me desconectar daquilo que realmente gostava de fazer. A vida leva-nos sempre a viver aquilo de que fugimos e eu não fui excepção. A partir de determinado momento fiquei sozinha, sem saber como lidar com os acontecimentos à minha volta. Pensei que estava prestes a enlouquecer. Tive ataques de pânico, e, pela primeira vez, depois de vários anos de voluntariado com crianças juridicamente afastadas dos próprios pais, apercebi-me que na realidade não se pode ajudar ninguém que não queira ser ajudado. Tudo aquilo em que acreditava e que, com muita convicção coloquei em prática, parecia ter sido em vão.

Fiquei perdida, e recomecei a minha vida numa outra cidade. Para além dos estudos, que me apaixonavam e que, aparentemente, me ajudavam a pôr ordem na complicada interpretação do mundo e das pessoas, os trabalhos que tive foram por mera subsistência, e quando o dia acabava encontrava-me a perguntar a mim mesma: – qual foi o ganho? Um montinho de dinheiro que não chega, acompanhado por algumas frustrações? É assim que vai ser a minha vida? É assim a vida das pessoas? Vou ter que me habituar a isto?? Mas eu achava que a vida era muito mais do que cumprir os horários, e repetir todos os dias a mesma tarefa… então como é, afinal, a vida?

O problema é que eu estava sempre à espera de que alguma coisa acontecesse, de que alguém se revelasse e me mostrasse outro caminho, outra solução. Estava a espera que alguém me salvasse.

Este alguém nunca chegou e a minha vida continuava com altos e baixos. Quando a minha filha nasceu sentia-me no topo do mundo, o meu grande desejo de ser mãe estava satisfeito. Quando ainda estava nos céus pela felicidade de ter trazido alguém a este mundo, a montanha russa começou a descer, e descia a uma velocidade tão rápida e assustadora que quando começou a andar mais lentamente já o meu mundo se tinha desmoronado por completo. Sentia-me a vítima sacrificada de uma vida incompreensível e injusta.

Farta do filme que estava a vivenciar, decidi acabar com tudo aquilo, e pôr-me num caminho diferente. Comecei a fazer-me perguntas e fui à procura de respostas. Desta vez, contrariamente ao que tinha anteriormente feito, comecei a procurar dentro de mim.

Se eu afirmasse que foi um caminho fácil e com muitas respostas estaria a mentir. É um caminho verdadeiro e não é nada parecido com o pensamento positivo e as boas energias. É um caminho dentro de mim, esta grande desconhecida, e neste caminho não há coisas boas ou más, há apenas quem eu sou e não existe, dentro de mim tal como dentro de ninguém, o bem e o mal. A dualidade é uma ilusão, embora possa parecer a coisa mais verdadeira e óbvia do mundo.  A verdade é que existe muito mais, a um nível muito mais alto e existe Amor dentro de nós, nós somos Amor, mas a via para viver desta forma, sem conflitos internos, sem culpas, sem expectativas e julgamentos é uma via unificadora mas nem sempre fácil. Pelo contrário, é um caminho do qual, ainda, por vezes, não percebo o sentido, ficando perdida entre o mundo em que vivia e no qual sabia fazer tudo em função dos outros, e aquilo que agora estou a descobrir de mim, para mim, pela primeira vez, como se fosse novamente uma bebé, e no qual a minha prioridade sou eu e mais ninguém, mas onde não sei fazer quase nada e preciso aprender tudo de novo, até a respirar.

A coisa mais incrível que estou a aprender é o agradecimento.

Parece simples, é fácil de dizer, muito menos de sentir. Agradecer o medo, o conflito, a impaciência, o sentimento de culpa, o ódio, agradecer as partes de mim que existem em mim e que sempre tentei silenciar, sem aceitá-las ou considerá-las como minhas. Partes recusadas, ignoradas, mas que estão cá, que fui eu que as criei e que finalmente aprendi a agradecer, estando disponível para as ver e deixando-as sentarem-se ao pé de mim. Por vezes provocam-me reacções de desespero, outras vezes só me acompanham quietas, mas eu agradeço-lhes independentemente do que façam pois sei que elas estão ao meu lado com muito amor e respeito por quem sou. E se elas nunca forem embora, e se eu nunca conseguir ultrapassar a sua influência em mim? Tudo bem, eu aceito-as. Fazem parte de mim, da minha história e da forma como eu estou a viver esta vida. Sejam bem-vindas e amigas. Sem elas não sei quem eu serei. É graças a elas que eu aprendo a ser Eu Própria. Contrariamente às mascaras com as quais eu as travestia com o objetivo de fazê-las parecer mais bonitas, elas são verdadeiras e podem-me ensinar algo de extremamente importante, algo que eu abracei como a minha prioridade máxima: conhecer quem eu sou.

Obrigada medo. Vamos de mão dadas enfrentar o meu caminho.

Por: Sara Di Chiazza