Como cinco sessões de hipnoterapia transformaram culpa crónica, assertividade e auto-estima em vítima de abuso narcisista
Terapeuta responsável: Joana Amaral
Técnicas aplicadas: Relaxamento Progressivo Hartland, Protocolo Vergonha/Culpa, EMDR, Transformação Essencial
Duração do acompanhamento: 5 sessões
Em poucas linhas
Mulher de 29 anos, cabeleireira, casada, mãe de dois filhos (6 e 8 anos). Infância e adolescência marcadas por violência psicológica e física: mãe narcisista que manipulava, chantageava e culpabilizava por tudo. Abuso emocional com depreciações constantes, exigências desproporcionais, restrições sociais. Episódios duraram até há 7 anos (mudou de localidade, cortou relações). Aos 7 anos: presenciou pais a baterem na irmã, sentiu pânico e impotência. Aos 8 anos: mãe arrancou cabeça e braços da boneca preferida em ataque de fúria. Aos 9 anos: diagnóstico de algoneurodistrofia (distúrbio neurológico autoimune) e vasculite sistémica.
Queixa principal: culpa excessiva (10/10) que se manifesta em todas as relações — familiar, pessoal, profissional. “Sinto que carrego o peso da culpa de tudo.” Busca constante de aprovação, auto-desvalorização, dificuldade extrema em dizer não. Quando se coloca em primeiro lugar, martiriza-se depois, culpabilizando-se e sentindo-se péssima pessoa. Sintomas diários, principalmente no trabalho (exigências de clientes) e com os pais (chantagem, manipulação).
Em cinco sessões de hipnoterapia, a culpa baixou de 10/10 para 3/10, a mágoa emergiu como sub-camada (10/10 → 7/10), e a pessoa recuperou assertividade, confiança e autonomia emocional. O caso ilustra como a culpa tóxica não é falha moral — é sintoma de trauma de desenvolvimento, programação defensiva para sobreviver num ambiente imprevisível.
O que a pessoa sentia
Sintomas emocionais
Culpa excessiva (10/10)
Intensidade: extrema, omnipresente
Padrão: “Carrego o peso da culpa de tudo”
Impacto: busca constante de aprovação, quer agradar sempre a toda a gente, coloca sempre outros em primeiro lugar
Quando se coloca em 1.º lugar: martiriza-se depois, sente-se péssima pessoa
- Ansiedade
- Medo de desagradar
- Falta de confiança
- Insegurança
- Auto-desvalorização
- Baixa auto-estima
Sintomas físicos
- Aperto na garganta
- Aperto no estômago
- Sensação de ardor nas pernas
Contexto pessoal relevante
- 29 anos, casada, mãe de dois filhos (6 e 8 anos)
- Profissão: cabeleireira
- Hobbies: passear com marido e filhos, brincar com os filhos, ouvir música
- Tabagismo: 10–12 cigarros/dia
- Sem consumo de álcool ou drogas
- Nunca fez hipnoterapia nem psicoterapia
- Historial: abuso emocional (mãe narcisista) desde infância; episódios duraram até há 7 anos
- Aos 9 anos: algoneurodistrofia (distúrbio neurológico autoimune) + vasculite sistémica
- Sintomas melhoraram na 1.ª gravidez, pioraram na 2.ª gravidez
O que foi feito
Técnicas aplicadas: Relaxamento Progressivo Hartland, Protocolo Vergonha/Culpa, EMDR, Transformação Essencial
Número de sessões: 5
Frequência: semanal/quinzenal (conforme evolução)
Objetivo terapêutico global
Da paciente: livrar-se dos sentimentos de culpa extrema, conseguir dizer não sem se sentir culpada, ser mais confiante, não ceder a chantagens nem manipulações (principalmente no trabalho e com os pais).
Terapêutico: trabalhar a culpa, a assertividade (sair de posição passiva), auto-estima e auto-confiança.
Plano terapêutico
- Sessão 1: Estabilização (ansiedade, assertividade, auto-confiança) — Relaxamento Hartland, Sítio Favorito, Cofre, Dissociação/auto-integração, Ensino auto-hipnose, Fortalecimento Ego
- Sessão 2: Trabalhar culpa — Protocolo Vergonha/Culpa, Técnica sentimentos restritivos, Fortalecimento Ego
- Sessão 3: Regressão — MAI, Pseudo-Orientação Regressiva (colher recursos no futuro, reviver passado/presente)
- Sessão 4: Sub-camada mágoa — EMDR (trauma infância até hoje)
- Sessão 5: Consolidação — Transformação Essencial
Evolução ao longo das sessões
Sessão 1 — Estabilização
Avaliação dos sintomas: 10/10
Apresentação: calma mas expectante. Indução de fechar olhos, manipulação distracções, contagem decrescente 10-1, relaxamento Hartland. Transe meia profundidade. Sítio favorito relaxamento, Cofre, auto-integração com objectivo. Ensino auto-hipnose, fortalecimento Ego, despertar.
Pós-sessão: “Experiência muito agradável (parece magia)”. Lembrava-se de toda a sessão.
Sessão 2 — Protocolo Vergonha/Culpa
Avaliação: 8/10
Referiu que dia após 1.ª sessão correu muito bem. Nota melhorias, dia-a-dia mais tranquilo, mais bem-disposta. Protocolo Vergonha/Culpa: imagem problema e imagem solução criadas; codificação modificada; escudo colocado. Técnica sentimentos restritivos: foco na culpa. Pseudo-orientação no futuro. Fortalecimento Ego forte.
Pós-sessão: sentimentos de alegria e leveza. “Como se tivesse saído um peso de cima.”
Sessão 3 — Regressão
Avaliação: 5/10
Mencionou sentir-se melhor cada vez que vem; muito melhor relativamente às queixas iniciais. Sentimentos de culpa menos intensos e menos frequentes. Pseudo-Orientação Regressiva: viajou até 2 momentos com mesma emoção (ansiedade) — aos 7 e aos 4 anos. Chorou ao reviver as duas situações. Ao reviver situação problemática inicial: sentiu-se calma mas magoada.
Pós-sessão: “Se terapia tivesse início agora, já não traria tema da culpa mas sim facto de me sentir magoada com os pais.”
Sessão 4 — EMDR (mágoa)
Avaliação: Culpa 3/10; Mágoa 10/10
Tem tido muito menos episódios de culpa; já consegue dizer não quando é melhor para ela sem se martirizar (principalmente trabalho). Sente-se mais livre. EMDR aplicado: Problema = mágoa com os pais (traumas infância até hoje). Imagem = situação em que mãe a culpou por algo que ela própria fez à irmã. Convicção negativa = “Sou injustiçada”. Convicção positiva = “Fiz o melhor que pude”. VOC 5→7. EUSD 10→8→6→3→1.
Durante processamento: “Agora consigo perceber que cada um faz aquilo que pode com aquilo que tem.”
Sessão 5 — Transformação Essencial
Avaliação: Culpa 3/10; Mágoa 7/10
Chegou calma. Satisfeita com terapia; cada vez mais consegue colocar-se em primeiro lugar quando colocada em situações desconfortáveis — sente-se mais confiante e segura de si. Protocolo Transformação Essencial aplicado. Problema = culpa excessiva. Objectivo = aceitar-se a si própria. Situação representativa = velório do avô. Estado Essencial = Felicidade. Chorou em alguns momentos ao recordar situações problemáticas.
Pós-sessão: “Nunca pensei que conseguisse sentir e vivenciar de forma tão intensa estas emoções e suas transformações.”
O que mudou
Tabela comparativa — Início vs Final
| Dimensão | Estado inicial | Estado final |
| Sintomas emocionais | Culpa excessiva 10/10, ansiedade, medo desagradar, insegurança, auto-desvalorização, baixa auto-estima | Culpa 3/10 (quase inexistente), ansiedade/medo quase inexistentes, confiança/auto-estima restauradas |
| Sintomas físicos | Aperto garganta/estômago, ardor pernas (intensos, frequentes) | Menos frequentes e intensos |
| Comportamento | Dificuldade dizer não, martiriza-se quando se coloca em 1.º, cede a chantagens | Assertiva, coloca-se em 1.º sem culpa, não cede a chantagens, fala do passado sem chorar |
Evolução emocional
A mudança foi profunda e progressiva. Sessão 1: culpa 10/10. Sessão 2: 8/10, “saiu um peso”. Sessão 3: 5/10, “se começasse hoje, traria mágoa”. Sessão 4-5: culpa 3/10, mágoa emergiu (10→7), assertividade restaurada. A culpa protegia da dor de reconhecer injustiça. Quando culpa cedeu, mágoa emergiu — e pôde ser processada.
Conclusão
Este caso ilustra três pontos centrais:
1. Culpa tóxica é sintoma de trauma, não falha moral. Criança sob culpabilização internaliza “tudo é culpa minha”. Não é falta de carácter — é programação defensiva para sobreviver num ambiente imprevisível.
2. Mágoa surge quando culpa diminui. Culpa protegia da dor de reconhecer injustiça. Quando culpa cede, mágoa legítima emerge — e pode ser processada. Esta é evolução saudável, não retrocesso.
Privacidade e transparência
Caso clínico real, acompanhado em formação TESED. Dados recolhidos com consentimento. Elementos identificativos removidos para proteger privacidade.