A Alegoria do Túnel

  • 3 Julho, 2019

Levados pela conversa sobre a viagem que um deles tinha recentemente feito para entrar em contacto com os povos indígenas do continente americano, os dois amigos trocavam pontos de vista sobre a abordagem espiritual dos xamãs.

– Gosto de analisar as práticas usadas pelos habitantes de uma determinada região em função dos resultados obtidos na forma de viver da população. Os povos indígenas do continente americano têm uma relação muito forte com a natureza e a sua perspectiva está certa, mas o homem moderno não vive no meio da floresta e dificilmente retornaremos a esses tempos. Perspectivas restritas da realidade podem-nos ajudar a analisar a nossa realidade, mas temos de olhar de forma mais ampla, pois o ambiente onde vivemos é significativamente mais complexo. Os nossos antepassados europeus também tinham abordagens ligadas à natureza e nem sempre estavam certas. Mas vamos deixar-nos de julgamentos e diz lá o que te preocupa.

– Quando encontrei aquele xamã, ele olhou-me nos olhos e disse-me que dentro de mim era como se existissem dois cães de quatro cabeças. O conflito dentro de cada um dos cães é enorme pelo facto de terem tantas cabeças, mas a discórdia entre os dois é superior a tudo isso, pois procuram coisas diferentes. Eu não sei como ele conseguia saber aquilo, mas era mesmo dessa forma que eu me sentia. Referi-lhe que estava a ficar maluco e que não sabia resolver a situação. Depois de algumas perguntas, ele referiu que era eu que tinha de acabar com isso, e que o final dependia de quem eu alimentava. Aquele que eu alimentava era aquele que ganhava força, morrendo o outro dentro de mim. Eu comecei a fazer isso, restringi todos os medos, conflitos, julgamentos, expectativas e encarreguei-me de trazer paz para dentro de mim. No início isso trouxe-me alguma serenidade e clareza, mas com o tempo e apesar dessa clareza, o conflito entre os dois aumentava ao ponto de se tornar insuportável.

– Vou contar-te uma história. Imagina que esses teus cães se chamam Luz e Sombra, e que dentro de ti existe um túnel onde eles habitam, mas não é um túnel comum. Num dos extremos é muito largo e não tem saída, mais ou menos a meio ele faz uma curva de quase noventa graus, e a partir dessa curva começa a estreitar até ao final deixando apenas espaço para uma pessoa passar, e exactamente a partir daí uma luz brilha projectando-se para o segmento do túnel até à curva, e para além dela a luz não é visível.  Imagina que esses teus cães vivem no extremo do túnel que não tem saída, onde a luz não é percepcionada. No entanto, esses cães têm características distintas, apesar de, ambos só conhecerem a vida no escuro do túnel, um deles brilha no escuro porque o outro lhe dá energia para ele brilhar, essa energia é transferida através do conflito latente entre os dois. Eles alimentam-se daquilo que tu lhes dás. Aquele que brilha alimenta-se acima de tudo de paz, amor, e tranquilidade que tu lhe transmites, e o outro do ódio, da raiva, do julgamento, do medo, da expectativa, da vergonha e da culpa que tu sentes. Como tu sentes mais irritação do que paz, o cão que brilha emite pouca luz e o túnel fica escuro, e para manter-se a brilhar precisa de estimular o conflito com a Sombra.  Ambos precisam de luz para ver, porém aquele que brilha, sem luz é cego. Para poder ver, a Luz estimula o conflito com a Sombra, ficando assim com luz suficiente para ver. Por outro lado, aquele que não brilha gosta do escuro e sente-se confortável nesse ambiente, e é onde ele vê melhor, e também sabe que assim pode ser útil, pois o conflito e a escuridão são o mundo dele. Nesse ambiente, ambos conseguem viver em equilíbrio, apenas tu não consegues, pois sentes continuamente o conflito dentro de ti.

Se agora alimentas um em vez do outro, qual seria o resultado?

Primeiro vamos imaginar que, alimentas mais a Sombra, então o conflito e tudo aquilo que está por detrás disso amplificar-se-á, no entanto, e ilusoriamente, naquela zona do túnel ondes eles habitam vai existir mais luz, como consequência de existir mais conflito, a Luz pode brilhar intensamente devido ao crescimento continuo do conflito com a Sombra. Ou seja, se alimentares a Sombra, o resultado é mais conflito e mais luz no túnel, e pelo facto de existir mais conflito não consegues que os cães saiam do sítio onde estão, mais uma vez eles estão em equilíbrio, mas tu vais sentir mais conflito.

Agora vamos imaginar que alimentas a Luz, trazendo mais calma, mais tranquilidade e serenidade, amor e paz, a Luz vai brilhar mais e não vai ter necessidade de fomentar conflito com a Sombra para poder ver, isso permite-lhe contemplar melhor o túnel e perceber que existe uma saída, por outro lado, a Sombra apesar de não gostar do que se está a passar, não tem a necessidade de entrar em conflito, pois não tem o estimulo da Luz para tal e submete-se à liderança desta, que o guia na direcção da saída. Quando ambos chegam à curva têm pela primeira vez uma experiência diferente, uma luz brilha e não é emitida pela Luz. Nesse momento a coisa complica-se. A Sombra tem agora medo de morrer, pois pensa que não consegue viver fora do escuro, e se continuarem a andar a luz vai ser tanta que ele pensa que irá desfazer-se, para além disso a intensidade do brilho daquela luz cega-lhe. Por outro lado, a Luz nunca poderia imaginar que existia outra luz para além dela, e pela primeira vez sente-se a perder a sua utilidade, e o medo de se tornar inútil assola-a. Ambos compreendem que têm de voltar imediatamente para o fundo do túnel, e que independentemente do que possa acontecer, esteja um mais forte do que o outro, eles tem verdadeiramente de se entreajudar e manter sempre o conflito entre eles para que o equilíbrio se mantenha, só assim a sua sobrevivência será assegurada.

– Isso significa que não existe saída desse túnel?

– Pelo contrário. Existe uma possibilidade. Primeiro tens de deixar de ver o mundo como uma escolha entre alimentar um ou o outro lado, e mais como podes conciliar ambos, e depois tens de assumir a liderança e guiá-los para fora do túnel.

– Como é que se faz isso, parece-me um pouco complexo?

– Primeiro tens de alimentar a Luz, para que haja clareza suficiente e assim eles possam deslocar-se até à curva. No limiar da curva todos os medos de que já falamos irão surgir e é aqui que tu tens de assumir o comando e ultrapassar aquela linha de luz que separa os dois troços do túnel. Vai surgir o conflito com a Sombra, e aí vais ter de entender quais os medos que possam existir e ultrapassá-los, enfrentando-os, bem como todas as culpas, vergonhas, tristezas, mentiras, ilusões e apegos materiais, tanto do passado como futuros. Quando os resolveres, podes então continuar. A partir deste ponto a Sombra deixará de ser um obstáculo, pelo contrário tornar-se-á o teu maior aliado, e é onde reside a maior parte dos teus recursos que estavam adormecidos. Nessa fase vais enfrentar o maior desafio que alguma vez poderás enfrentar.

– Ainda maior do que converter a Sombra?

– Sim, ainda maior, pois agora tens de lidar com o facto da vida não ter mais significado para a Luz. O sentido dela viver, era dar luz e clareza, mas agora existe uma fonte milhares de vezes mais potente, e onde não se necessita de fazer nada para ter claridade, ela é infinita, a utilidade da sua vida termina quando entrares no troço iluminado do túnel, e quando finalmente saíres do túnel a Luz pensa que ficará sozinha e abandonada, preferindo extinguir-se e esperar a morte. Agora tens um cão para treinar e tens de ser tu a fazê-lo, e o treino será ensiná-lo a captar as capacidades da Sombra baseado no amor em vez do conflito e ensiná-lo a usar essas capacidades para coisas que sejam uteis num ambiente onde a luz, a clareza e a consciência são abundantes e vêm de uma fonte inesgotável. Se conseguires ensinar a Luz a potenciar os recursos da Sombra, ela ajudar-te-á a saíres desse túnel, se não conseguires ensiná-la ficarás preso no limiar da linha de luz, ou então, a frustração instala-se e não terás outra forma de viver senão no fundo do túnel e em conflito.

– É uma perspectiva complexa, a do xamã era mais fácil.

– Sim, mas qual foi o resultado? Facilidade não significa melhor, nem significa atingir resultados. O facto de a julgares complexa, é apenas a tua perspectiva. Eu considero-a difícil, mas simples. E sabes porquê?

– Não.

– Porque só depende de ti e de mais ninguém, é uma questão de liderança tua. Quando tens processos em que os resultados não dependam só de ti, deves abandoná-los. Se te mantiveres só a alimentar os cães, eles manter-se-ão em equilíbrio e o resultado dependerá sempre da vontade deles e não da tua vontade.

– Estou confuso.

– Não precisas de estar confuso, só tens de escolher como queres viver. Ou vives dependente das escolhas de outros ou vives dependente das tuas escolhas. Ambas as formas de vida estão certas, só tens de escolher como queres viver.

Por: Paulo Pais