A Lebre, a Tartaruga e o Rio

  • 9 Setembro, 2018

Para Bé aquele era definitivamente um dia muito especial, tinha chegado um dos momentos mais importantes da vida de uma lebre. Coberta pela sombra de uma árvore guardadora de rios, observava estática os movimentos, que folhas e ramos descreviam ao nadarem da sua esquerda para a sua direita a uma velocidade estonteante. Dentro de pouco tempo estaria a mergulhar nele e a tentar nadar o melhor que conseguisse. Ainda não sabia o que o seu mestre lhe iria pedir, mas tinha a certeza que passava por entrar naquele rio. Tinha tentado falar com outras lebres sobre o tema, mas nenhuma lhe dava uma resposta clara, e fechavam o assunto com “Logo verás”. A ansiedade e o nervosismo tinha atingido nos últimos dias níveis nunca antes experienciados. Afinal o momento em que uma lebre se torna adulta e passa a ser considerada pelos seus pares uma lebre a sério, só acontece uma vez na vida. Não era normal o seu Mestre atrasar-se, e como sempre lá vinha ele num movimento como se o filme fosse em câmara lenta, o que normalmente ainda a “stressava” mais do que ela já era.

– Bom dia Mestre – cumprimenta num tom alegre nervoso, como se quisesse dizer se tem de ser vamos lá despachar isto.

– Bom dia, Bé – adivinhando o estado em que a sua aprendiza se encontrava, continua – Essa ansiedade só te pode prejudicar. Na vida até podemos precisar de muita coisa, mas garantidamente os estados de nervosismo e ansiedade criados por nós só atrapalham.

– Como criados por nós? – devolve Bé, visivelmente ainda mais irritada. Nunca tinha entendido como é que ele parecia saber sempre o que ela sentia, como também não tinha percebido como é que ele se movimentava tão lentamente, mas estava em todo o lado a tempo e horas, era sempre assertivo, e raramente usava para comunicar uma velocidade desadequada à situação.

– És tu que crias esses estados. Olha à tua volta, o que é que vês? – continua o Mestre.

– Um rio a serpentear bem à minha frente, umas árvores e arbustos a agitarem-se ao ritmo do vento, e pouco mais – devolve Bé, visivelmente incomodada com a pergunta. Afinal ela não era estúpida nenhuma, e sabia muito bem que não havia nada à volta que a incomodasse.

– Existe alguma coisa que justifique essa ansiedade? – continuava o Mestre na sua toada calma e tranquila sem prestar atenção à agitação que a sua aprendiza manifestava.

– Não. – Bé estava a ficar deveras irritada com a situação. Será que o Mestre não entende a importância deste dia?

– Então esse estado vem de dentro de ti, e tudo aquilo que vem de dentro de ti, foi criado por ti. Muitas vezes não sabes como é que fizeste, mas um primeiro passo para poderes mudar o estado é aceitares que foste tu que o criaste.

– Sim, eu sei, já percebi, não é a primeira vez que falamos sobre isto.

– Eu sei que não é a primeira vez que falamos sobre este tema, mas só vais conseguir entender quando estiveres disposta a colocar na prática. Até lá apenas conheces o assunto. Tens de parar de usar essas palavras que te enganam.

– Mas que palavras me estão a enganar? – Bé começava a ferver, se fosse uma chaleira havia muito tempo que estaria a apitar com o vapor.

– Eu sei, eu percebi. Este tipo de palavras que não correspondem à realidade.

– Então que palavras devo usar? – sem entender muito bem o que o Mestre pretendia com aquilo. Falávamos agora de semântica, já não chegava ter de ir fazer algo que nem sequer sabia, para agora estarmos a falar de algo sem sentido.

– Quando muito podes dizer que conheces. Saber, entendimento, percepção, consciência, só vais ter quando colocares na prática. Ao usares palavras que não representam o teu estado estás apenas a enganar-te e a iludir-te. Até podes pensar que são questões de semântica, mas não são. As palavras que usas são representações dos teus estados internos e transmitem o mundo em que vives, se não prestas atenção, acabas por viver num mundo que não é real e te leva para locais totalmente desajustados do que queres. – impávido e sereno o Mestre lá ia explicando o que pretendia parecendo sempre adivinhar o que ela estava a pensar.

– Gostava antes que me dissesses o que tenho de fazer para despachar o assunto e irmos à nossa vida – visivelmente constrangida com aquela conversa, não percebia muito bem o que o Mestre pretendia dizer. Será que ele não entendia o desespero em que ela se encontrava e que não estava para estar com conversas sobre temas, que no seu entender não tinham aplicação prática.

– Percebo que, o que te esteja a falar, pareça distante da realidade e da vida prática. No entanto, tudo aquilo que eu disse está mesmo relacionado com a vida e o modo como a vives na prática, pois conecta-se efectivamente com o que dizes e fazes, e não existe nada mais representativo da vida do que os teus comportamentos físicos e verbais. – enfatizava o Mestre desesperando ainda mais a sua aprendiza.

– Acredito que o momento seja de muita tensão para ti. Para que te possas acalmar, vou contar-te uma história – apesar da angústia cada vez maior de Bé, o Mestre Tartaruga impávido a tanta aflição, continuava.

– Há muitos, muitos anos, as lebres dominavam e desprezavam os outros animais mais lentos. Regularmente existiam corridas, onde para além da competição entre as lebres, ainda desafiavam outros animais a ganhar-lhes. Claro que sabiam que eram imbatíveis, e por isso arrogantemente, davam-se ao luxo de desafiar outros animais, sabendo que iam ganhar, e valiam-se disso para subjugarem os outros. As tartarugas eram vistas como animais menores e demasiado lentos, apesar da inteligência não conseguiam bater as lebres. O mundo estava organizado de modo a que os mais velozes ganhassem. Todos os animais treinavam afincadamente para serem como elas. Até as tartarugas se exercitavam com muita persistência para ganharem velocidade, no entanto e apesar de ficarem mais rápidas, nunca atingiam ligeireza suficiente, e desgastavam-se tanto que andavam sempre cansadas, fazendo com que ainda se movimentassem mais lentamente. Um dia um antepassado meu, mudou a forma como treinava e em vez de treinar com exercícios rápidos, passou a exercitar-se de forma mais lenta, tão lenta, que até parecia estar parado. Percebeu que nunca conseguiria ser uma lebre, e ao tentar ser uma, estava a desrespeitar a sua natureza. Ele era uma tartaruga e iria treinar-se como tal, aceitando as suas limitações, percebeu que esse era o seu desafio como tartaruga, ao transformá-las, iria melhorá-las continuamente, e às suas forças iria potenciá-las, para que estivesse sempre a dar o melhor de si em cada segundo. Todas as tartarugas lhe disseram que assim ele ia perder, que não estava a ir na direcção certa. Apesar de todos os avisos, ele continuou e quando se sentiu preparado fez algo que nunca tinha sido visto, desafiou as lebres para uma corrida mais longa do que o habitual. Claro que as lebres se riram todas, mas acabaram por levar o desafio a sério e selecionaram a mais rápida delas para o enfrentar. As lebres nunca tinham sido desafiadas e muito menos para uma corrida tão longa. O normal eram elas desafiarem os outros animais e ditarem as suas condições. Serem desafiadas e ainda por cima por uma tartaruga, era algo estranho. No início da corrida e como era esperado, a lebre afastou-se tanto que o meu antepassado a tinha perdido de vista. Sabes que deslocarmo-nos a velocidades maiores tem os seus contratempos, tem de se comer muito e descansar também bastante, obrigando a lebre a parar por largos momentos. Assim, após um início arrasador, ela teve de parar para comer. Quando acabou tentou perceber onde estava a tartaruga, vendo que ainda tinha uma distância muito grande, resolveu descansar um pouco para voltar depois à estrada. Quando volta a acordar, já não consegue mais ver a tartaruga, ficando um pouco ansiosa e nervosa, desata a correr a alta velocidade, passando pela tartaruga e parando uns metros mais à frente. Como tinha ficado nervosa e corrido a uma velocidade exagerada, o desgaste tinha sido enorme, obrigando-a a comer e a descansar novamente. Como estava muito cansada pela corrida e pelo stress que tudo aquilo lhe estava a causar, nem se apercebeu que faltava muito pouco para o final da corrida. Escusado será dizer que quando ela acordou apenas teve oportunidade de ver a tartaruga a ser levada em ombros pela vitória inédita. Este acontecimento mudou o rumo da história. As lebres nunca mais dominaram o mundo e perceberam que tinham muito a aprender com as tartarugas. Pela primeira vez olharam para as tartarugas como animais a ter em conta, e entenderam que as suas vidas eram muito curtas e demasiado agitadas, pelo contrário as tartarugas viviam calmamente e muitos anos. Desde então, as tartarugas passaram a ensinar as lebres e os outros animais, deixou de haver a necessidade de alguma espécie de animal dominar as outras, por alguma vantagem que pudessem ter relativamente aos outros. Todos os animais perceberam que cada um era como era, e que tinham de respeitar isso, respeitando-se e respeitando os outros. Pois tudo aquilo que eram e que tinham, era exactamente aquilo que precisavam, quererem ser diferentes apenas lhes trazia desconforto e mau estar.
Agora já sabes a razão para o teu Mestre ser uma tartaruga. Hoje é um dia importante para ti e vais estar a enfrentar uma situação que te é desconfortável, mas que ao conseguires ultrapassá-la, irás descobrir em ti própria várias capacidades que não fazes a mínima ideia que as tens.
Na tua frente tens um rio em que as águas se movimentam a uma grande velocidade, do outro lado do rio, mesmo à tua frente, tens umas cenouras, estás a vê-las?

– Sim, já as tinha visto mal cheguei a este sítio.

– O objectivo é chegares ao outro lado do rio e comeres aquelas cenouras, que é o que tu mais queres, certo?

– Sim, já tenho água a escorrer pela boca.

– Quando quiseres podes então ir.

A Bé desejosa por comer as cenouras atirou-se à água, nadando com toda a força que podia, tentando vencer a corrente do rio. Rapidamente se cansou, deixando-se levar pela corrente sai, um pouco mais abaixo, na mesma margem onde tinha iniciado a travessia. Arrastando-se pelo cansaço vem ao encontro do Mestre.

– Preciso de dormir e de comer, estou a desfalecer.

– O que aprendeste?

– Que a corrente do rio é muito forte e não vou conseguir passar para o outro lado.

– Hoje vamos ficar por aqui. Voltamos amanhã.

– Mas eu quero tentar mais uma vez.

– Vais tentar as vezes que forem necessárias, mas agora vais comer e descansar. Vais pensar sobre a experiência que tiveste com o rio, e amanhã depois de falarmos sobre isso, irás tentar mais uma vez.

No dia seguinte lá estava a lebre ansiosa por tentar novamente.

– Então o que aprendeste sobre o assunto?

– A corrente do rio é muito forte, porém eu já estive a fazer alguns exercícios de agilidade, e estive a imaginar-me do outro lado com as cenouras na minha boca, por isso estou pronta.

– Achas que vais conseguir só com isso. Esse falso positivismo pode não ser exactamente aquilo que precisas.

– Sim, sim, anda lá, já estou a ficar farta de tanta conversa.

– Então vai. Sabes que és tu quem decide o momento que deves tentar, tens a responsabilidade total pela tua vida, eu só estou aqui para aquilo que precisares.

E sem pensar mais no assunto, Bé atirou-se para o rio cheia de vontade e com motivação suficiente para passar este e todos os rios do mundo só numa braçada. Escusado será dizer que lhe aconteceu o mesmo que da primeira vez, e a arrastar-se lá foi ter com o Mestre. Começava, pela primeira vez, a acreditar que nunca iria ser capaz de passar para a outra margem.

– Sabes que antes de ti outras lebres tentaram e conseguiram, por isso tu também podes conseguir se estiveres disponível para escutar o rio. Amanhã à mesma hora.

Durante dias, Bé tentou ultrapassar este obstáculo, todavia sem sucesso. A única coisa que ainda a conseguia motivar a não desistir, era o seu Mestre, a confiança que depositava nele e na sua sabedoria. Neste momento, só ele acreditava que ela seria capaz. A esperança, de que algum dia, ela conseguisse passar para a outra margem, desvanecia-se ao ritmo que as águas passavam naquele rio. No entanto, depois de uma noite deveras agitada e em que sonhou continuamente sobre temas muito estranhos, que não lhe faziam sentido, começam a surgir raios de sol no meio da escuridão em que se encontrava.

– Acordei com uma ideia muito estranha na minha cabeça. Para conseguir passar para a outra margem tenho de prescindir daquilo que quero. Não sei o que isto significa. Tive um sonho em que eu estava no rio e deixava a minha vida fluir com ele.

– Não necessitas de prescindir do que queres, mas aceitar que aquilo que tens em cada momento é aquilo que precisas.

Mal o Mestre acaba de dizer estas palavras, Bé percebe finalmente o que estava a fazer que não lhe permitia chegar à outra margem do rio.

– Já percebi, tenho de deixar que a corrente me leve, mas sou eu que vou manobrando direcionando-me no sentido da outra margem. Não vou sair no sítio das cenouras, porém irei atingir a outra margem no sítio que for preciso. Não sei o que vou encontrar, será no entanto aquilo que preciso.

– Boa. Estou a ver que estamos a evoluir. E então queres tentar novamente?

– Sim. Sabes que no caminho para cá, a única coisa que me apetecia era desistir, tinha chegado ao meu limite, não estava mais disposta a entrar na água. Depois do meu sonho e da conversa que tivemos, parece que tudo se encaixou e mais do que nunca, sim, quero passar para a outra margem.

Num ápice mergulhou, e apesar de nos primeiros instantes ainda sentir algum desconforto e não saber muito bem como fazer, lembrou-se do sonho, e a pouco e pouco, parou de lutar contra a corrente, e lá foi flutuando com a corrente do rio, ao mesmo tempo que manobrava o seu corpo no sentido da outra margem. Tranquilamente e com um sorriso de vitória nos lábios, sai para terra. Procura incessantemente o seu Mestre, para lhe mostrar o que tinha conseguido, e nem se apercebe que ele já se encontrava ao seu lado.

– Como é que conseguiste já estar aqui deste lado?

– Sabes que tu podes ser muito rápida em terra, contudo eu sou muito veloz dentro de água. Cada um de nós tem as suas capacidades, mas onde crescemos mais é quando nos predispomos a sair dos nossos ambientes naturais e resolvemos enfrentar situações que nos são desconfortáveis.

– Sim, já percebi. E agora percebo quando tu dizes que só é possível passar para níveis de maturidade maior quando colocamos o que aprendemos na prática. Tudo aquilo que eu aprendi contigo ao longo deste tempo tive de colocar hoje em prática.

O Mestre agora falava-lhe sobre vários assuntos que eram importantes para a sua vida futura. Ao mesmo tempo que ouvia o Mestre, o olhar de Bé já navegava pelo espaço à sua volta. Estranho, depois daquela experiência, não lhe apetecia mais comer cenouras. O seu nariz apurado tinha encontrado umas ervas que lhe estavam a abrir o apetite. Durante uns instantes, embalada pelos sons das palavras do Mestre e pelo sabor daquelas ervas apetitosas, nada mais parecia existir, até os seus ouvidos a obrigarem a focar a sua atenção nas palavras do Mestre.

– Agora que atingiste a maioridade tens um desafio maior, tens de escolher sobre viver só ou mal-acompanhada.

– Mestre, essa é fácil, é óbvio que escolho viver só.

– Se é assim tão óbvio, como é que tens aplicado isso na prática? É assim, que tens até hoje, vivido a tua vida? – pergunta o Mestre para o ar, visivelmente Bé tinha perdido o interesse pelo tema e tinha voltado para as ervas.

Por: Paulo Pais