Ajudar a crescer

  • 26 Junho, 2017

Era sexta-feira e o entusiasmo da Joana explicava-se por ser o dia dos Super-heróis  do Grupo de Recuperação da Própria Vida. Ela gostava de todos os grupos e de todas as pessoas que vinham àqueles encontros e não sabia explicar muito bem qual a razão para a emoção que sentia quando estava perto do Super-Homem. Emocionava-se de tal forma que era raro não ter de disfarçar a lágrima que lhe corria pelo rosto. A alegria era tanta que até parecia flutuar enquanto caminhava pelos corredores abrindo portas para que os utentes fossem devidamente atendidos. Não era um trabalho fácil, mas era muito interessante observar as mudanças que as pessoas mostravam quando saíam da sala indicada por ela. Apesar da paixão que ela tinha por aquele trabalho, naquele dia, os seus pensamentos navegavam noutras águas.

– Bom dia Sr. Kent – cumprimentou Joana expressando um sorriso de orelha a orelha. Quem a visse agora não conseguiria resistir a sentir uma certa inveja e ciúme pelo seu estado. – Então, preparado para mais uma sexta-feira emocionante?

– Olá Joana. Bom dia! Sim, sim, estive a semana todo ansioso. Já chegaram todos?

– Quase todos. Falta só o Homem Aranha que ligou a avisar que iria chegar um pouco atrasado – conforme Joana ia falando sobre as surpresas que estavam preparadas, agarra no braço do Super Homem e leva-o até à porta que estava destinada para aquele dia.

Os dois olhavam agora para a porta e, num gesto de extrema elegância, parecendo quase uma bailarina clássica, roda a maçaneta e desliza suavemente para o interior da sala ao mesmo tempo que fixava os seus olhos nos olhos de Clark, como que preparando-o e convidando-o a entrar. Ele apesar do desejo ainda estava hesitante, mas o olhar de Joana era irresistível e isso fez com que os seus pés perdessem o medo e avançassem para dentro da sala.

– Bom dia Clark, ou devo dizer Super Homem? – cumprimenta o guia daquela sessão desafiando-o a assumir a sua personalidade.

– Bom dia, não sei, tenho estado expectante por esta sessão, mas tenho-me sentido emocionalmente um pouco fraco. O desmame da Kryptonite retira-me alguma energia e recorda-me emoções e situações antigas.

– Isso é normal. A retirada de medicação que esconde o nosso verdadeiro potencial arrasta consigo o retorno aos momentos antes de começarmos a medicar-nos. Eles não resolveram nada, apenas esconderam. – Conforme diz isto e, entusiasmado pelo tema, avança na direcção da assistência. Com as mãos a flutuar no espaço, mostrando uma caneta e uma folha de papel, como que possuído por algo exterior a ele, pára percorrendo com o olhar todos aqueles que se encontravam na sala.- Estão a  ver esta caneta?

– Sim – referem todos em uníssono

– Vou colocar a caneta em cima da secretária, continuam a vê-la?

– Sim – ouve-se em uníssono, demonstrando alguma falta de paciência e sem perceberem muito bem o que o guia lhes queria mostrar.

– E agora conseguem ver a caneta?

– Não, claro que não, você colocou a folha de papel por cima da caneta – responde a Mulher Invisível, sem perceber muito bem o que o guia pretendia com aquilo tudo.

– Mas apesar de não poderem ver a caneta sabem que ela existe, certo? Ela não desapareceu, pois não?

– Não, claro que não – retornou a Mulher Invisível

– Pois é. A caneta era aquilo que vocês sentiam antes da medicação e a folha de papel é a Kryptonite. Quando retiramos a folha de papel vamos voltar a ver a caneta. Agora percebem o tempo que perderam enquanto estiveram a tomar medicação? Vamos começar a viver e recuperar a vossa vida? E para começar digam-me quais as situações que vos traumatizaram mais?

Todos pararam um pouco nos seus pensamentos, enquanto a imagem da caneta a ser destapada ainda circulava pela sala.

– Eu lembro-me de um acontecimento que me deixou mesmo de rastos e nunca percebi muito bem a reacção das pessoas que salvei – referia o Super Homem com um semblante triste. – Estava a flutuar tranquilamente pelos céus quando pressinto que alguma coisa estranha se passava. Deixo o meu olhar ser guiado pelo meu instinto e nesse movimento reparo numa locomotiva que se deslocava a uma velocidade excessiva. O maquinista estava desesperado, mas as pessoas nas carruagens estavam totalmente tranquilas e nem se apercebiam do que se estava a passar. Olho mais para a frente e reparo que a situação ainda era pior do que parecia, pois outro comboio estava parado na mesma via, era uma questão de minutos e iriam chocar violentamente. Resolvo intervir e começo a parar o comboio. Devido à velocidade excessiva que ele trazia não foi possível pará-lo sem trazer algum impacto nas carruagens. Não foi nada de especial, mas algumas pessoas desequilibraram-se e caíram, não houve qualquer lesão mas estavam um pouco assustados. Quando o comboio finalmente parou e após o susto inicial começaram a reclamar de estarem parados, uns reclamavam de ter caído, outros reclamavam que tinham reuniões importantes e iriam chegar atrasados. Quase sem explicação começaram a atirar coisas mostrando a vontade de não quererem que eu interferisse nas vidas delas e que as deixasse em paz. Até parecia que todos eram mais felizes sem mim! A partir desse dia passei a ser o Clark Kent a tempo inteiro. Deixei de me preocupar se o mundo ia chocar contra algo a uma grande velocidade, pois no meu entender, só quando isso realmente acontecer é que percebem em que situação realmente estão, até lá só sabem reclamar sem terem a perspectiva global da situação.

– Super não te preocupes com isso – ouve-se a voz do Homem Aranha que tinha entrado na sala enquanto o Super Homem contava o seu caso – Um dia ajudei uma velhinha de bengala que caminhava toda curvada, e que mostrava grandes dificuldades para atravessar uma avenida cheia de trânsito. Quando a coloquei no passeio do outro lado da alameda desatou aos berros e a batia-me violentamente com a bengala. Estava irritada por eu a ter ajudado, pois ela não tinha pedido ajuda, teimava que não precisava de ajuda de ninguém, muito menos de alguém mascarado de aranha, e a quem não conseguia ver os olhos! A vida é assim Super, se tens a expectativa que alguém reconheça o que fazes, esquece! Estás na profissão errada. – Terminava o Homem Aranha de forma educativa.

– O meu caso ainda é mais estranho, pois era alguém que tinha consciência de onde estava – começa o Homem Elástico. – Era um homem que estava no fundo de um poço, tinha caído lá dentro sem saber como. Quando lhe disse que o ia tirar de lá, ele nem falou. Depois de insistir para que ele falasse e ao não obter qualquer resposta decidi esticar os meus braços, pegar nele e retirá-lo de lá de dentro. Surpresa das surpresas, ele lutava para que eu não o agarrasse e depois quando tentei puxá-lo, agarrou-se ao fundo do poço e por incrível que pareça não o conseguia mover nem um milímetro. Acabei por desistir e deixá-lo lá e até hoje não consegui entender a razão para alguém querer ficar no fundo de um poço e ainda por cima lutar para não sair de lá.

– A vida não é exactamente como nós pensamos que ela é – refere o guia e continua – acima de tudo ser super herói não é tarefa fácil, mas foi a vida que vocês escolheram. Devem estar conscientes do que se passa à vossa volta e fazer tudo aquilo que mantenha a vossa consciência tranquila. Agradar a gregos e a troianos não vai ser possível. O julgamento e a aprovação dos outros não é um requisito para quem vocês são. Ajudem se sentirem que tem de ajudar e sintam-se bem com vocês próprios independentemente dos resultados. O mundo precisa de vocês tal como vocês são e não como as pessoas querem que vocês sejam.

Com esta frase o guia termina a sessão deixando-os a olhar para o silêncio que se tinha instalado na sala. Quando Joana os vê sair percebe que não lhes deveria dizer nada, pois as suas faces mostravam que iriam ter uma semana de introspecção profunda e de descoberta de quem eles realmente são.

Por: Paulo Pais