Capacidade para resistir ao açúcar

  • 11 Junho, 2017

Depois de alguns meses de procura, Joana tinha finalmente arranjado um trabalho, e era para lá que ela se dirigia naquela manhã fria e desconfortável. Ela esperava estar à altura dos acontecimentos e corresponder às expectativas das pessoas que a tinham contratado. Na hora exacta de abertura da clinica lá estava ela preparada para o seu primeiro dia de atendimento e recepção dos pacientes. Arrumava a sua secretária quando ao levantar a cabeça depara-se com o primeiro cliente. Aquela cara não lhe era estranha, mas não conseguia agora lembrar-se de onde. Estas sensações aconteciam-lhe muitas vezes, mas o que ela não esperava, era que isso acontecesse logo com a primeira pessoa que tinha de atender no primeiro dia de trabalho naquela clinica. Passado a surpresa inicial, aventura-se a pronunciar timidamente algumas palavras desconexas:

– No que lhe posso ser útil? – pergunta Joana agora mais centrada nas suas funções e recomposta da impressão inicial.

– Tenho uma consulta marcada para agora. – devolve o homem que estava à sua frente.

– Qual é o seu nome?

– Kent. Clark Kent e tenho uma consulta de rotina marcada.

– Sim, está aqui o seu nome. Pedia que aguardasse uns minutos que irei abrir já, já, o gabinete que está reservado para si.

– Obrigado – replica o sujeito visivelmente agradecido pela prontidão do atendimento.

“Que surpresa” pensava Joana, logo no primeiro dia de trabalho e depara-se com o Super-Homem, em carne e osso. Afinal os personagens da banda desenhada e do cinema existiam mesmo de verdade. Navegava agora na sua mente enquanto acompanhava o paciente ao gabinete que lhe estava destinado. Elegantemente coloca a chave na fechadura da porta rodando a maçaneta e convida o paciente a entrar. De forma resoluta, Clark entra então no gabinete e mal acaba de entrar uma voz ecoa na sala, dando-lhe as boas-vindas e convidando-o a sentar.

– Então o que é que o traz cá? – pergunta descontraidamente o médico de serviço ao atendimento.

– Doutor, tenho-me sentido muito estranho, sinto arrepios, ando muito ansioso e algumas vezes tenho uma pressão no peito, isto para além das dores nos joelhos que me acompanham há anos.

– Estou a ver aqui a sua ficha e está a tomar Kryptonite 250mg desde há 5 anos, um comprimido por dia, verdade?

– Sim, é correcto.

– Bom, nesse caso vamos ter de aumentar a dose de kryptonite. Vamos começar a tomar 2 comprimidos por dia.

– Doutor, mas esses comprimidos tiram-me muita energia, sinto-me muitas vezes cansado.

– Sabe que é mesmo assim, ou tem energia e tem de enfrentar todas essas sensações de ansiedade e mau estar que tem, ou então prefere uma vida mais calma, tranquila e passiva, remoendo-se interiormente por tudo aquilo que poderia fazer e não consegue fazer.

– Mas doutor, o que me diz é que eu posso decidir não tomar a Kryptonite?

– Claro, é uma decisão sua.

– Mas eu não sou médico, como é que posso decidir sobre isso?

– Sabe que existem sempre vários caminhos e somos nós que os escolhemos, mas temos de assumir a responsabilidade pelas nossas decisões.

– O quê? Não percebi.

– Se me pede para que eu assuma a responsabilidade pela sua vida, a única coisa que eu lhe posso fazer é dar-lhe Kryptonite, pois tenho de o manter seguro e confortável. Mas se quiser assumir a responsabilidade pela sua vida então eu posso sugerir-lhe outro caminho, mas a partir daí eu já não poderei fazer nada por si.

– Mas significa que vou estar sozinho? Isso é assustador.

– Não, nada disso. Irá falar com a menina da recepção e irá pedir-lhe para ela o inscrever nos Grupos de Recuperação da Própria Vida. Ela explica-lhe tudo.

– Então e quanto ao aumento da dose de Kryptonite?

– Agora é uma decisão sua. Quer aderir aos Grupos de Recuperação da Própria Vida ou prefere antes continuar a tomar Kryptonite?

– Estou um pouco indeciso e sem saber o que fazer.

– Gostava que soubesse que não existe um caminho certo e outro errado, é apenas a sua escolha e aceitar que são formas de viver diferentes. Então no que ficamos?

Durante uns instantes o silêncio da sala fervilhava nos ouvidos de Clark Kent, as vozes eram imensas, o conflito interno era assustador e parecia não acabar. Finalmente, no meio daquela confusão toda, consegue ouvir algo que lhe parecia ser a sua voz a sussurrar-lhe, “experimenta ser responsável pela tua vida, vais ver que é mais interessante do que passares o tempo escondido por detrás desses óculos e dessa gravata fora de moda”.

– Já vi que fez a sua escolha, acho que faz muito bem – salientou aliviado o médico por já não ter a seu cargo aquela personagem.

Clark sai do gabinete determinado a alterar o modo como vive. Encontra-se agora em frente da rapariga simpática que o recebeu e o encaminhou até ao gabinete anterior.

– E então o que é que ele disse? – perguntou entusiasmada Joana, visivelmente satisfeita pelos desafios e surpresas que lhe estavam a acontecer neste novo trabalho.

– Acho que quero entrar para um desses Grupos de Recuperação da Própria Vida. Pode-me indicar como é que isso funciona e quais são os horários disponíveis?

Grupos de Recuperação da Própria Vida? Joana nunca tinha ouvido falar em tal coisa, mas isso já não a admirava, depois de logo pela manhã estar frente a frente com o Super-Homem e com outras personagens que ela pensava que só existiam no mundo da ficção e da fantasia, já nada a surpreendia. Aquele trabalho era mesmo interessante. Apesar de, só encaminhar os pacientes para o sítio esperado, abrindo as portas necessárias para que fossem tratadas, estava a gostar mesmo daquilo. Era motivador, apesar de nem sempre as pessoas fazerem as melhores escolhas para as suas vidas. Durante as poucas horas que estava ao serviço já tinham passado por ela várias situações. A que ela melhor se lembrava era da Cinderela que preferiu continuar a tomar comprimidos para a ansiedade, enquanto o príncipe encantado se demorava a encontrar o seu pé, sentiu alguma tristeza momentânea quando ouviu a sua história. A do James Bond também a emocionou, quando soube que ele tinha perdido a licença para matar e deixou a vida de agente secreto ao serviço de Sua Majestade, a Rainha de Inglaterra, para agora passar os dias em casa a jogar jogos na Playstation, na Internet e a ouvir os noticiários da noite. Depois deste início de dia, nada a surpreendia e quando Clark lhe falou que, queria saber como funcionavam os Grupos de Recuperação da Própria Vida ela nem pestanejou, procurou no livro que tinha à sua frente, abriu na primeira página e lá estavam os tais grupos, com os respectivos horários e com uma breve descrição de como tudo funcionava.

– Temos às segundas o grupo das pessoas metidas nos seus próprios mundos, às terças temos os argumentistas e encenadores, às quartas temos as pessoas que estão na plateia, às quintas o grupo das personagens do mundo da fantasia e às sextas o grupo dos super-herois e personagens extraordinárias. E então qual é que acha que seria o melhor grupo para si?

– Estou confuso, mas o melhor é mesmo à sexta-feira. Vai ser um desafio, mas vamos ver o que dá.

– Faz muito bem – expressava Joana a sua satisfação, ao mesmo tempo que preenchia alguns dados pessoais que eram necessários para a inscrição – e pronto já está inscrito. Então até sexta.

Aquela semana tinha passado mesmo muito lentamente, mas finalmente chegava sexta-feira, Clark estava ansioso por iniciar uma nova vida. Entrava agora na clinica.

– Então Sr. Kent como está? Está preparado e com vontade para enfrentar novos desafios? – Joana estava mesmo satisfeita e fazia transparecer essa alegria em tudo o que fazia, gostava mesmo de ajudar estas pessoas a encararem as suas vidas de outra forma. Para algumas pessoas este trabalho não tinha muito mérito, mas para ela aquilo era tudo. Adorava mesmo encaminhar e guiar os pacientes para as salas para onde eles tinham de ir, abrindo as portas que tivessem de ser abertas conforme eles se deslocavam naquelas direcções. Era a sua forma de ajudar e participar no crescimento pessoal e na recuperação da saúde dos clientes da clinica, e sentia-se bem por isso, nunca tinha tido um trabalho tão interessante.

Trocam algumas impressões de circunstância, ao mesmo tempo que Joana guiava Clark até à sala que hoje lhe estava destinada. Quando entrou na sala reparou que já só há uma cadeira livre, apesar de, ter chegado uns minutos antes da hora marcada, os seus companheiros de grupo chegaram muito tempo antes, deviam estar mesmo entusiasmados, pensava ele, e enquanto se encaminhava para a sua cadeira, uma voz calma e serena interrompe os seus pensamentos.

– Dêem as boas vindas ao nosso novo membro, o Super-Homem.

Aquela entrada foi intimidante, todos os olhares se viraram para ele, mas sim, ele era o Super-Homem e tinha de se habituar a isso, manter-se escondido só lhe tinha trazido desconforto, mal-estar e uma vida sem sentido.

– O primeiro desafio de hoje para “os meus super-heróis” é: “ existe um barco que vai sair em direcção a uma terra longínqua com viajantes que decidiram de livre vontade embarcar nessa viajem. A vossa função é, garantirem que todos os viajantes sabem nadar e os que não souberem, vocês vão ter de os ensinar a nadar. Ninguém pode embarcar nesse barco sem saber nadar. Essa é a vossa responsabilidade. Se algum dos viajantes não souber nadar e não quiser aprender como é que vocês vão ensiná-lo?”

A sala naquele momento pairou em silêncio, eles não estavam habituados a fazer isso, eles eram super-heróis, eles salvavam as pessoas das situações em que se encontravam, quando muito tiravam da água alguém que se estivesse a afogar. Eles não sabiam fazer aquilo. Nunca tinham tido a necessidade de ensinar alguém, eles resolviam as coisas. Olhavam uns para os outros, com o olhar perdido sabe-se lá onde, as mentes divagavam, como podiam ensinar alguém que não queria aprender?

– Então, explicava o que ele tinha de fazer, depois levava-o para dentro de água e após ele me ver nadar, propunha que ele fizesse o mesmo e ajudava-o a manter-se em cima de água – explicava racionalmente Batman, entusiasmado com a sua proposta.

– Interessante essa proposta se ele quisesse nadar, mas ele não quer aprender, o sucesso dessa forma seria nulo – responde o guia daquela sessão.

– Explicava-lhe tentando convencê-lo de que ele tinha de aprender a nadar para ir naquela viagem – esforçava-se o Homem Aranha.

– Sim, seria uma possibilidade se ele quisesse de alguma forma aprender a nadar, mas ele não quer aprender e esse tipo de manipulação não o iria convencer – volta a insistir o guia.

– Não conseguimos ensinar ninguém que não queira aprender – insiste Sue, a Mulher Invisível do Quarteto Fantástico.

– Isso é verdade, mas existe uma e apenas uma possibilidade de sermos bem-sucedidos no ensinar alguém a nadar que não queira aprender – persiste o guia. – Então, no que ficamos?

– Primeiro volto a perguntar se ele quer mesmo fazer aquela viagem, se a resposta for não, então ele tem de ir embora, mas se a resposta for sim, então atiro-o imediatamente para dentro de água e observo o que está a acontecer, quando ele estiver aflito e quase a afogar-se vou lá buscá-lo, deixo-o recuperar um pouco o fôlego e atiro-o novamente para dentro de água, e repito o processo até ele aprender a nadar – explica o Super-Homem.

– Boa. Eu sabia que havia esperança para o Super-Homem – diz o guia visivelmente satisfeito com o progresso.

– Isso não é um pouco violento? – perguntava a Super-Mulher.

– Violento seria deixa-lo embarcar sem saber nadar e por acidente ele cair ao mar e morrer afogado. Seria violento para ele e emocionalmente para todos os viajantes. – Retorquiu o guia.

– Quando eu insistia em algo que a minha mãe achava que era prejudicial para mim, ou coisas que eu devia fazer e não queria ou situações que eu me recusava a aprender ela dizia-me quase sempre a seguinte frase: “mais vale tu chorares agora que eu a vida toda” – sublinhou Richard, o Homem Elástico do Quarteto Fantástico.

– Foi um pouco estranho o que senti, pois parece ser contrario à minha natureza, mas agora percebo o que estava a acontecer comigo, eu andei a ajudar as pessoas, mas na realidade não estava a ajudar ninguém, estava a ficar agarrado à Kryptonite e a todas as minhas fraquezas. Possivelmente porque era mais confortável manter as coisas como estavam do que mudar algo. A minha capacidade para resistir à facilidade era pouca. Era mais fácil e rápido resolver imediatamente as situações do que investir tempo a ensinar. O curto prazo prevalecia continuamente sobre as coisas duradouras. Tinha sempre uma desculpa pronta para as pessoas não serem capazes, achava-os uns coitadinhos e a precisarem da minha protecção, percebo agora que a forma de actuar não era a mais adequada e só me levava ao desgaste e à desilusão – resumia agora o Super-Homem.

– Sabem qual é a fórmula para enfrentarem todas as situações das vossas vidas? – perguntava o guia empolgado com aquela sessão, enquanto pensava que afinal trabalhar com super-herois até era bastante motivador. Sem dar tempo a que houvesse uma resposta prossegue:

– Isto vai ser o tema da próxima sessão, mas adiantando um pouco, comecem a sentir agradecimento por tudo o que vos acontece, independentemente do que seja, e de seguida perguntem, qual a razão para precisarem desse acontecimento? Qual a aprendizagem? E qual a solução?
Na próxima sexta vamos ver como podemos colocar esse processo a funcionar. Sim, porque vocês têm tudo o que precisam na vossa vida, podem não ter tudo o que querem, mas têm seguramente tudo o que precisam. Até para a semana! – o guia falou deveras entusiasmado.

À saída Joana encontra-os de volta da sessão e estava mesmo curiosa para saber o que se tinha passado.

– Então Sr. Kentcomo é que foi? Gostou?

– Sim, foi muito interessante. Já agora pode deixar de me tratar por Sr. Kent, o meu nome é Super-Homem. Até sexta e gostei muito. Foi espectacular. Sexta-feira cá estarei de novo.

Por: Paulo Pais