Inimigo Público Número 1

  • 14 Julho, 2018

Se aplicássemos os ensinamentos por detrás daquilo que consideramos o “mau da fita” da vida actual e que manipula a verdade das evidências, todos viveríamos dando o melhor de nós a cada segundo, regularíamos a vida pela felicidade e “ser feliz” deixaria de ser um desejo para ser a realidade. Confusos? Vou-vos contar duas histórias reais.

A primeira história vem do mundo industrial, dos primórdios dos estudos sobre melhorias das condições de trabalho tendo como objectivo o aumento da produtividade.

A partir de 1924, a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos iniciou alguns estudos para verificar a correlação entre produtividade e iluminação do local de trabalho, dentro dos pressupostos clássicos de Taylor e de Gilbreth, onde a optimização de tempos e movimentos eram o foco principal, levando aos extremos comicamente retractados por Charlie Chaplin no filme da época “Tempos Modernos”.

Em 1927, o Conselho Nacional de Pesquisas iniciou as experiências na Western Electric Company, uma companhia de material eléctrico situada em Chicago, no bairro de Hawthorne, ficando as mesmas conhecidas por esse nome. Sem querer alongar-me sobre todas as experiências que aí foram feitas e as suas implicações no funcionamento das organizações actuais, gostava de salientar o início das mesmas e os estranhos resultados obtidos, levando as experiências a passarem por várias fases e âmbitos distintos, prolongando-as até 1932.

A aplicação do método científico, muito em voga naquela época, estendia-se a áreas que normalmente não eram tidas em conta. As experiências de Hawthorne não fugiram a essa moda, elevando-as a um nível tal, que ninguém poderia colocar em dúvida os resultados obtidos, garantindo assim a sua fiabilidade e credibilidade.

Primeiramente, começaram por melhorar as condições de luz que as operadoras tinham para efectuar as suas tarefas, a medição do impacto era feita no aumento ou diminuição de peças produzidas. Como esperado nessa primeira experiencia a produtividade aumentou. Resolveram melhorar ainda mais as condições de luz e tal como era esperado a produtividade aumentou ainda mais. Para provarem a teoria de que as condições de luz era um factor a ter em conta naquela secção, voltaram a colocar as condições iniciais. Ao contrário do que eles esperavam a produtividade continuou a aumentar. Agora estavam baralhados. A expectativa geral era que a produtividade diminuísse e regressasse aos níveis iniciais correspondentes ao do começo das experiências. Apesar de estarem um pouco perdidos com os resultados resolveram diminuir um pouco mais as condições de luz e ver o que acontecia. O resultado ainda foi mais surpreendente e parecia que alguém andava a brincar com eles, a produtividade continuava a aumentar. Resolveram levar a coisa ao extremo, reduziram tanto as condições de luz que as trabalhadoras tinham dificuldade em ver o que faziam, e mais uma vez a surpresa manteve-se, a produtividade aumentou ainda mais. Noutras experiências efectuadas verificaram igualmente que a produtividade aumentava com o aumento da luz e diminuía com a sua diminuição mas também variavam no mesmo sentido quando as trabalhadoras julgavam que a luz tinha aumentado ou diminuído, apesar de não terem existido qualquer mudança nas condições de luz. Não sabiam o que concluir, afinal as condições físicas, neste caso relacionadas com as condições de luz, era o factor mais importante ou as percepções das operadoras é que regulavam a produtividade?

Resolveram entrevistar as trabalhadoras para tentarem perceber o que se passava. Invariavelmente elas respondiam que, como estavam a fazer parte de uma experiência para a qual elas não sabiam o objectivo, estavam a dar o melhor delas e a actuar no sentido de não defraudar as expectativas, para que não fossem consideradas o factor de falhanço das experiências.

A segunda história vem de um caso médico. Um senhor já com uma certa idade sofria de uma doença para a qual ninguém sabia como resolver, nem como aliviar o seu sofrimento. Após vários exames e consultas com vários especialistas médicos, encontra finalmente alguém que lhe diz claramente e exactamente o que ele tem e lhe receita o medicamento adequado. Depois de tanta busca e desespero na resolução da sua doença finalmente é encontrada a solução que o pode ajudar. De efeito quase imediato, ao iniciar a toma da medicação recomendada, as melhorias progrediam de dia para dia até os sintomas desaparecerem. Durante anos ele foi tomando aquela medicação acompanhada pelo, que ele considerava, o seu médico milagroso. Estava no entanto algo para acontecer que iria colocar o desafio num nível superior. Como a venda daquele medicamento era insignificante a farmacêutica descontinuou a sua fabricação. Desesperado o paciente retorna para o seu médico que o tenta acalmar receitando um alternativo. Apesar de toda a conversa e explicação médica sai do consultório pouco convencido, mas lá iria tentar. Apesar de respeitar o que o médico lhe tinha dito, aquilo que ele mais temia estava a acontecer, a doença retornara e agora com impacto ainda maior. O médico começa igualmente a ficar desesperado e tenta encontrar alternativas, mas nenhuma delas funciona. Até ao dia em que convence a farmacêutica a produzir comprimidos de celulose, mas embalados como se fossem os que o paciente julgava ser o medicamento milagroso. Mal estes ficaram disponíveis o paciente começou a tomá-los, e miraculosamente os sintomas voltaram a reverter, passando este a ter uma vida normal.

Estes dois exemplos mostram claramente o poder que a nossa consciência tem sobre nós. Quando damos o melhor de nós e acreditamos que o que estamos a fazer é o que está certo, potenciamos toda a nossa força interior e direccionamos todos os nossos recursos no sentido da nossa felicidade. A este facto dá-se o nome de efeito placebo, que tem sido o inimigo público numero 1, da sociedade moderna, da medicina, em resumo do processo científico. Para que qualquer experiência dita científica possa ser considerada válida tem de ter em conta esse efeito e ser desenhada de modo a eliminá-lo. Daí as escolhas das amostras, a existência de grupos de controlo, os ditos testes duplo cegos, etc…, os resultados nunca são reais, mas comparativos com os resultados do placebo, ou seja, a eficácia de algo é medida comparativamente ao efeito que o placebo teve. Assim, se um medicamento teve um impacto de melhoria num determinado sintoma em 35% dos testados, este número é comparado com o impacto que o placebo teve no grupo de controlo, que suponhamos para o caso foi de 30%. Assim, a eficácia do medicamento foi apenas de 5 % (35% – 30%). Mas para que as contas sejam bem-feitas temos de medir a segurança. Ora o placebo não tem efeitos secundários negativos, enquanto o medicamento vai afectar uma serie de outros sistemas negativamente. Considerando que os efeitos secundários do medicamento foram variados, mas afectaram 15% da população testada, significa no total que o medicamento tem impacto negativo, quando comparado com o placebo (aos 5% de eficácia de curto prazo superior do medicamento temos de retirar os 15% de efeitos secundários, obtemos assim um resultado negativo do medicamento relativamente ao placebo de -10% de eficácia real comparativa). Se para além disso, adicionássemos os efeitos a médio e longo prazo, algo que nunca é testado nos medicamentos disponíveis no mercado, chegaríamos a valores negativos de eficácia real comparativa do medicamento, relativamente ao placebo, assustadoramente baixos.

Ora os medicamentos disponíveis no mercado apenas tiveram de provar no curto prazo que são mais eficazes que o placebo, ficando a sua segurança tão diluída por vários efeitos secundários raros, que não são alvo de questionamento (a criatividade na classificação de efeitos secundários é uma arte), e onde a eficácia e segurança de médio e longo prazo nem sequer é tida em conta. Desta forma o processo de libertação de medicamentos para o mercado passou a ser uma negociação em vez de ser aquilo que todos julgávamos, um processo rigoroso de índole cem por cento científico. Podemos facilmente concluir que, ao contrário do que actualmente consideramos uma verdade absoluta, qualquer medicamento disponível no mercado é mais prejudicial do que benéfico quando comparado com um placebo.

Para além disso ainda nos incutiram que, aplicar o placebo era igual a não fazer nada. Nada mais falso, na realidade aplicá-lo significa participarmos da experiência dando o melhor de nós e acreditarmos que o que estamos a fazer é aquilo que nos vai trazer felicidade, sem quaisquer dúvidas ou julgamentos, nem expectativas distorcidas, culpas, ressentimentos ou medos injustificados, e isso é muito diferente de não fazer nada.

Não fazer nada significa manter o que se está a fazer sem actuar, sem intervir, sem participar, sem fazer parte da experiência, ou do acontecimento ou mesmo estar ausente do momento, na verdade, desconectados connosco e com o que se está a passar. De outro modo, ter como resultado do que se faz, a consequência de aceder ao efeito placebo, significa que estivemos a dar o melhor de nós em cada segundo e em todas as situações, sejam elas quais forem, e acreditamos sem dúvida nenhuma que isso é o melhor que podíamos fazer e o mais adequado para o que estamos a viver. Não é uma questão de falso positivismo que se instala na nossa mente como um vírus e não se materializa, é algo que vamos colocar em prática. Na experiência de Hawthorne as operadoras faziam parte da experiência, não era algo que elas imaginavam, tal como no caso do doente de doença rara, o comprimido era mesmo tomado, ou seja, aquilo que ele acreditava entrava em sintonia com ele, mesmo que a pílula não tivesse absolutamente químico nenhum, era o que ele acreditava e pensava ser o melhor, ao mesmo tempo que estava a fazer parte da experiência, não era algo que ele imaginasse sem se materializar. Decorre assim que, qualquer experiência, momento ou acontecimento, estará sempre envolvido pela Força do efeito placebo e os resultados terão sempre de ser analisados em comparação com ele. Quando nos desconectamos da experiência, do acontecimento ou do momento, deixamos de ter acesso ao efeito placebo, aí significa que estamos a fazer nada. No entanto temos de ter atenção a um factor, é que não há bela sem senão, e o efeito placebo não foge à regra. O lado negro do efeito placebo pode ficar disponível quando participamos da experiência, ou acontecimento não dando o melhor de nós, pensando que não somos capazes e vamos falhar. Neste caso o efeito placebo inverte o sentido e iremos sofrer as consequências desse facto, potenciando ao máximo a negatividade, o conflito interno, a raiva, o desespero, diminuindo a auto-estima permitindo que a doença se instale a níveis cada vez mais profundos.

Agora que sabemos o que o efeito placebo significa, existe alguém que prefira usar ilusões de eficácia debilmente comprovada e cheia de efeitos secundários, em vez de aprender a usar esse efeito em tudo aquilo que faça no seu dia-a-dia?

Conseguem imaginar o impacto que teria nas vossas vidas, no nível de saúde da população e na produtividade do país se o sistema nacional de saúde recomendasse, em vez de soluções e protocolos cheios de efeitos secundários, o uso de terapias que restabeleçam o equilíbrio do corpo e da mente, e ao mesmo tempo ensinassem a população a usar este efeito tão poderoso, que é decorrente de darmos o melhor de nós e acreditarmos que o que estamos a fazer é de facto o mais adequado para a situação. Conseguem imaginar?

Por: Paulo Pais