Largar o buraco da fechadura

  • 20 Novembro, 2018

Habituamo-nos durante anos a condenar algo que é essencial ao nosso corpo – o Colesterol. Ele é visto como algo tão terrível e assustador que o combatemos impiedosamente. Sem percebermos as consequências dos nossos actos, mas completamente convencidos da cruzada empreendida, desenvolvemos fármacos para o eliminar, introduzimos o desporto, teoricamente saudável, para evitar os seus efeitos nefastos. E aquilo que parecia um sonho tornou-se no maior pesadelo dos nossos tempos. Apesar de os frutos dessa demanda terem imediatamente surgido, ainda demorou algum tempo para vermos efectivamente os efeitos na população desse Eldorado prometido da vida até à morte sem doenças.

Com as farmacêuticas a pressionarem os profissionais de saúde a receitarem comprimidos para o colesterol como se fossem água e com as marcas desportivas a publicitarem agressivamente as vantagens e a liberdade de praticar desporto para uma vida mais saudável, que até faziam lembrar os anúncios ao tabaco nos anos 80, que nos ofereciam, num canudo cheio de um castanho mal cheiroso do tamanho de um dedo e da espessura de uma esferográfica BIC, o mundo maravilhoso da liberdade, da personalidade forte e da segurança de escolhermos o nosso caminho.

Não foi necessário esperar muito para o véu ser destapado e os efeitos aparecerem em catadupa. Temos toda uma geração de idosos com falta de memória, Alzheimer, demência acentuada, mulheres jovens que tem dificuldade em engravidar por não terem gordura estrutural suficiente para gerar vida, jovens ainda antes dos 40 anos a terem dores generalizadas, articulações deformadas e em degeneração, e poderíamos continuar a enumerar um sem fim doenças relacionadas com esse caminho tão maravilhoso.

O Homem tem tendência para aceitar quase sem questionar as primeiras evidências ficando pela superficialidade e pelo ego indestrutível de quem encontrou algo que parece ser uma descoberta estrondosa não querendo admitir que podem existir outras perspectivas. Quando se estudava a doença escorbuto, que se manifesta pela falta de Vitamina C no nosso corpo, a primeira conclusão foi que o cérebro não precisava dessa vitamina, pois ao autopsiarem pessoas que tinham morrido com essa doença, invariavelmente e apesar da degeneração acentuada do corpo, verificava-se que todo o sistema nervoso estava intacto e de perfeita saúde. Ainda demorou algum tempo até percebermos que o maior consumidor de vitamina C é exactamente o cérebro, e esta vitamina é de tal forma importante para ele, que é o único sitio do nosso corpo que consegue produzir a partir do colagénio vitamina C, as restantes células e órgãos do nosso corpo tem de receber directamente vitamina C do exterior não tendo capacidade de a produzir. A consequência é, na falta de vitamina C, o cérebro roubar colagénio a todo o corpo para manter o seu funcionamento. Como o colagénio é o que dá estrutura ao corpo, na sua falta este começa a “apodrecer” e a decompor-se, exactamente os sintomas do escorbuto. Neste caso, a primeira conclusão não teve um impacto na saúde da população em geral, porque não houve como no caso do colesterol medicamentos e empresas a aproveitarem-se de uma mentira. Para além disso, a situação do escorbuto mostra claramente como o nosso cérebro funciona e o desprezo que demonstra pelo resto do corpo. Ao praticarmos desporto produzem-se hormonas que dá ao cérebro uma sensação de bem-estar ilusória, mas é só ele que se sente bem, o resto do corpo vai sofrendo com o desgaste exagerado provocado pelo desporto desproporcionado, sendo muitas vezes difícil para a pessoa ter a noção clara do que está a acontecer no seu corpo.

Voltando ao Colesterol e especialmente ao modo como o medimos, e já nem vou referir a questão da definição dos limites que foram criados para se vender medicamentos e não tomaram em consideração as várias necessidades de colesterol que cada pessoa tem.
Fazemos análises ao sangue e se por azar temos o colesterol elevado lá vem o desespero e as luzes vermelhas a acenderem-se. De uma vez por todas temos de começar a perceber o que é que isso significa e a não embarcarmos em soluções que ainda nos enterram mais.

Vamos imaginar que quero saber quantos carros existem em Portugal. Decido medir para o efeito a quantidade de carros que estão em circulação nas estradas num determinado dia e hora. Conseguiria saber através desses dados quantos carros existem em Portugal? Claro que não, pois não estava a contar com aqueles que estavam estacionados. Ora, a medição do colesterol através do sangue apenas nos diz qual a quantidade de colesterol que existe em circulação no sangue, não nos diz qual a quantidade estacionada e onde está estacionada. Se eu agora quisesse diminuir o colesterol no sangue e fizesse algo para o eliminar, o que aconteceria? Se olharmos para o exemplo dos carros e quiséssemos diminuir os carros em circulação, estaria a diminuir a quantidade de carros em Portugal? Logicamente também não, o que iria conseguir era um maior volume de carros estacionados. Ora é exactamente isto que acontece no nosso corpo. Como retiramos a possibilidade de existir colesterol em circulação então ele vai acumular-se nas zonas que precisam mais dele, que são o cérebro, o fígado e dependendo de cada pessoa temos sempre uma ou mais áreas preferenciais para acumular gordura, a consequência desse fenómeno é o entupimento arterial nessas zonas, aumentando a inflamação chamando ainda mais por colesterol, pois é ele que ajuda a reparar as estruturas do nosso corpo, estreitando os vasos capilares reduzindo a quantidade de oxigénio a chegar a essas zonas, levando no caso do cérebro a demência, faltas de memória, cansaço psicológico e a AVCs, entre outras situações. Para além deste quadro ao diminuirmos a quantidade de colesterol em circulação vamos diminuir a quantidade de nutrientes a chegar às nossas células e a retirada de toxinas das nossas células, pois é o Colesterol chamado Mau que leva nutrientes e o Colesterol chamado Bom que retira toxinas. Ambos fazem essa função desde o nosso fígado para as células e das células para o nosso fígado. Desta forma vemos que é o fígado que gere todo este sistema e se queremos equilibrar o colesterol que temos no corpo seja em circulação, seja parqueado, e se queremos eliminar a possibilidade de entupimentos dos vasos sanguíneos provocados pelos depósitos de colesterol originados pela inflamação e a deterioração dos capilares sanguíneos temos de olhar para o fígado e regular o seu funcionamento.

Assim, temos de considerar sempre, tal como para outras zonas do nosso corpo, soluções que são meramente físicas e soluções que são mais de natureza emocional. Consideramos a alimentação como um factor essencial e assim devemos reduzir ou mesmo eliminar açucares, álcool, cereais refinados, gorduras saturadas, lacticínios, o consumo exagerado de proteínas mais pesadas, inclusive o fumar,  que à partida parece não ter nada a ver com o fígado, mas limita-o significativamente pois é ele que tem que eliminar as toxinas do sangue que esse acto gera, bem como ter atenção a algumas misturas alimentares que fazemos no nosso dia-a-dia e que o sobrecarregam desnecessariamente, como por exemplo misturar hidratos de carbono com proteínas, entre outras. Em termos emocionais aquilo que o bloqueia é a tristeza, mas em termos gerais a raiva, o ódio, o conflito, o ressentimento, a falta de confiança são o que emocionalmente o influencia mais. Alimentarmo-nos fisicamente de alimentos nutricionalmente mais adequados e emocionalmente de Amor, em vez de comprimidos e desporto exagerado é o que ajuda mais o fígado a repor os níveis adequados de colesterol.

Medidas imediatistas como todos sabemos criam normalmente mais problemas e são a maior parte das vezes totalmente desajustadas. Desse modo reclamamos quando o governo coloca restrições ao movimento de carros para diminuir a poluição em vez de construir estruturas de transportes que permitiria prescindir do veículo automóvel. Mas quando toca a nós implementarmos medidas estruturais, em vez de seguirmos a mesma lógica de pensamento e implementarmos medidas que permitiriam às estruturas do nosso corpo funcionarem, o que fazemos é exactamente o contrário, o uso do comprimido e castigarmos o nosso corpo é sempre a medida mais rápida e ajustada.

Quando é que começamos a ser congruentes? E quando é que ganhamos coragem para abrir a porta e largamos o vício redutor de olhar a realidade pelo buraco da fechadura?

Por: Paulo Pais