Medo de Viver

  • 11 Junho, 2018

Ana estava a entrar nos 30 anos e vivia com a sua família numa sala. Era uma sala enorme, mas não deixava de ser uma sala. Passavam o tempo ou a falar uns com os outros ou então cada um ficava por seu lado metido no seu mundo. Ultimamente começaram a evitar as conversas, restringindo-as a assuntos banais e de pouco compromisso, invariavelmente, quando se alongavam mais do que os 30 segundos do bom dia e de como está o tempo, o conflito despontava e desenterrava temas antig0s por resolver. Mesmo quando se juntavam às refeições, cada um comia o mais rápido que podia e isolava-se no seu canto e se por algum motivo começavam a falar de assuntos interessantes, sem saberem como, acabavam sempre no mesmo sítio, discussão e conflito floresciam sempre do nada. O pai observava, raramente participava e só emitia algum som quando a conversa se alongava ao ponto de os vizinhos ouvirem as vozes a tentarem ganhar a discussão pelo aumento do seu volume e da sua estridência. Quem o via diria que espelhava o desalento do deixar de acreditar que a vida fosse mais do que aquela sala. O irmão de Ana, tinha como hobby chatear a mãe e de vez em quando também o pai com as suas criancices e chamadas de atenção. A mãe ocupava-se de todos e era incapaz de parar um segundo, tinha receio que o mundo acabasse e a responsabilidade fosse dela. Claro que desesperava por ninguém a ajudar, mas ninguém percebia o sentido da sua actividade. O pai passava o dia na “caixa do nada”, ou então entretido com algo que lhe interessasse e esperava que ninguém o incomodasse. Já o irmão seguia o exemplo do pai, mas como ainda não tinha criado uma “caixa do nada”, implicava com a mãe e de vez em quando elevava o nível envolvendo o pai no assunto. Já Ana sentia-se sempre infeliz. Pensava naquela sala e acreditava que a vida tinha que ser mais do que aquilo. Lia e pesquisava sempre muito na tentativa de encontrar uma saída. Praticamente desligara-se da família, apesar de viverem na mesma sala, ela não via mais sentido em viverem daquela forma. Fossem para onde fossem a sala ia com eles, quando Ana ia para a escola a sala lá estava, envolvia-a e às vezes até a sufocava. A opressão era tal que até nas saídas familiares eram incapazes de deixar aquela sala para trás, traziam-na sempre com eles, até chegar ao ponto de preferirem ficar em casa.

O desespero que aquela sala criava em Ana intensificou-se tanto que a inquietação invadiu-a, não conseguindo ficar parada. A aflição borbulhava e fervia tanto dentro de si que chegou ao ponto de se aproximar das paredes da sala procurando algo, sem saber bem o quê. A família ao ver aquele desassossego começou a ficar preocupada. O que se passava com Ana? Não estaria satisfeita? Estaria infeliz? Depois de algum tempo e de Ana manter aquele comportamento estranho chamaram um médico. Este ao analisar a situação receitou-lhe uns comprimidos para que ela voltasse ao seu comportamento habitual e que tivesse o comportamento adequado e normal, como esperado por todos. Querer sair daquela sala era impensável e de uma irresponsabilidade enorme. Tanto o pai como a mãe se sentiam responsáveis pelo insucesso da atitude da filha e o sentimento de culpa começou a invadir ambos, ao ponto de se acusarem mutuamente pelos resultados. Depois de algum tempo a tomar os comprimidos e de toda a sonolência e mau estar criados, Ana resolve fingir que os toma e às escondidas volta a tentar encontrar a saída daquela sala.

Um dia pela manhã ainda todos dormiam e já ela pesquisava nas paredes da sala aquilo que a inquietava tanto. Sem saber como nem porquê, as suas mãos encontraram algo novo que nunca tinham percepcionado antes. A textura era diferente, a subtileza era grande, mas havia algo de diferente naquela zona das paredes da sala. Ao “manipular” aquela textura e ao rodar a sua mão de forma elíptica, algo se movimenta, era uma porta que imediatamente se abre, mas para sua surpresa não havia nada para lá da porta, era vazio. Ainda com um misto de medo e de surpresa, aventura-se um pouco mais e coloca o seu pé direito no vazio, tentando apalpar o terreno. A sensação era estranha, era como se tivesse tocado algo e não via nada que pudesse justificar aquela sensação. O medo começa a apoderar-se dela, mas a vontade de querer sair daquela sala e explorar coisas novas era maior. Resolveu colocar o pé e de seguida o outro, ficando agora a um passo para além da sala onde tinha vivido toda a sua vida. De pé, no vazio, por mais estranho que pudesse parecer os seus pés estavam em terreno firme e um caminho tinha nascido, mas só até ao ponto onde ela tinha os pés. Resolveu arriscar um pouco mais e deu mais um passo, primeiro apalpando com um dos pés e depois ganhando coragem para dar o segundo passo. Era um feito histórico! Ela nunca tinha estado tão longe daquela sala como agora. O impulso para ultrapassar este segundo desafio apareceu como por encanto. Eram apenas dois passos, mas eram dois passos importantes, tão importantes que a confiança aumentou e as inseguranças iniciais começaram a desvanecer-se. Aventurava-se resolutamente dando passos uns atrás dos outros, afastava-se cada vez mais do ambiente onde tinha nascido e vivido. Sentia-se tão longe que a vontade de se desconectar de tudo aquilo que foi a sua vida até então, cresce assustadoramente dentro de si. De repente para. Algo a bloqueava e não lhe permitia andar mais. Olhava em frente e não via nada a não ser o vazio, olhava para trás e também não via nada, mas havia algo que a prendia e que vinha do seu umbigo. Estranho, nunca tinha tido aquela sensação antes. Resolve colocar a mão no seu umbigo para tentar perceber o que se passava. Era uma espécie de corda. Que esquisito! No mesmo instante que uma série de pensamentos lhe voavam pela mente, o pai, a mãe e o irmão estão na sala à entrada da porta, a chamá-la de forma insistente e bastante ruidosa. Gritavam desesperadamente para ela vir para trás, para dentro de sala. Era perigoso o que ela estava a fazer, não podia afastar-se mais, pois se ela desse mais um passo, sim um único passo, eles não conseguiriam ajudá-la. Serena e ao mesmo tempo em conflito consigo própria, tinha de decidir voltar para trás ou continuar a caminhar em frente no vazio, sem qualquer suporte e sem saber onde desembocaria. As incertezas e dúvidas, naturais inerentes a um momento de decisão, pulavam e elevavam-se à sua volta retirando-lhe a capacidade de pensar de forma racional. Sabia que não queria voltar para aquela sala, mas o caminho em frente metia-lhe algum medo e assustava-a não saber o que iria acontecer no passo seguinte. Na sala tudo era previsível e apesar de se sentir infeliz, de certa forma, até era confortável. Era o conforto de saber com o que se pode contar, o conforto do hábito e das rotinas criadas, das crenças, das aprendizagens e dos pontos de vista criados durante toda a sua vida. No caminho em frente teria de mudar a necessidade de se sentir confortável e isso era assustador. Apesar de querer fugir daquela sala, ela até gostava dos hábitos que tinha criado e abandoná-los estava a ser uma experiência desestruturante, de tal modo que sentia, como se já não soubesse quem era.

O que fazer? Voltar para trás, para o conforto do que já conhece, ou enfrentar os medos e desafios do desconhecido? Estaria ela disponível para abandonar tudo o que conhece e criar uma vida nova? E será que essa vida nova existe ou serão só imaginações suas? A única coisa que ela consegue nesse momento perspectivar é o vazio à sua frente, fazendo aumentar a indecisão e o peso de se manter na segurança do conforto daquela sala.

Durante uns momentos que lhe pareceram uma eternidade ficou parada e sem qualquer reacção. Toda a sua vida até então passava num vislumbre à sua frente, como flashes de filmes e sem pensar mais decide chamar a sua família, para que viessem com ela e saíssem daquela sala. Ao contrário das suas expectativas e do esforço para os convencer, em uníssono recusam. Desesperada e esgotando todos os argumentos, ao ponto de começar a entrar em conflito com eles, sente aquela corda que estava agarrada ao umbigo a puxá-la na direcção da sala. Ao sentir isso percebe que aquela ligação abdominal era o que a mantinha ligada àquela sala e que era activada e estimulada pelo conflito, pela culpa, pelo ressentimento. Quando tem consciência do que estava a acontecer, resolve imediatamente parar com a sua postura de tentar que eles fizessem o mesmo caminho que ela estava a fazer. Estranhamente a sua atitude muda e começa por agradecer à sua família ter-lhe mostrado o significado daquela sala. Agradece-lhes todos os ensinamentos que lhe transmitiram durante a sua vida. Diz-lhes que se eles quisessem ficar era uma opção deles e que independentemente do que acontecesse e das decisões que pudessem assumir, ela as aceitaria, os amaria sempre e mesmo muito, e que independente dos actos e dos comportamentos que eles pudessem ter, mesmo que fossem contrários aos seus, ela os respeitaria. A única coisa que pedia era que respeitassem as suas decisões. Agora, era mesmo importante, tinha de tirar aquela corda do umbigo e seguir o caminho que estava a iniciar. Quando se volta para retirar aquela prisão do seu abdómen, percebe que a sua atitude e ter pedido o medo fizeram com que a corda de desvanecesse no ar.

Afasta-se cada vez mais daquela sala, resolutamente e com vigor, mostrando certeza e convicção nos seus passos, e, surpreendentemente, o caminho nascia por debaixo dos seus pés, cada vez com maior definição. Conforme a confiança extravasa, esse caminho deixa de se confinar aos seus pés, ganhando dimensão e profundidade, de tal modo que o vislumbre dos passos seguintes se desenham à sua frente. Quando finalmente se depara com outra porta já não é com estranheza, ou surpresa que a enfrenta, mas como algo que inconscientemente já esperava. Abrindo-a com convicção depara-se com uma nova sala, mas diferente da anterior, nesta não havia paredes nem limites, nem cordas ligadas ao umbigo. Nesta podia olhar em todas as direcções e ir para onde quisesse. Ela tinha ganho isso! Finalmente era livre! Claramente percebe que o preço a pagar pela liberdade tinha sido a disponibilidade para enfrentar o maior medo de todos. Ela sempre soube que a vida não podia estar vedada àquela sala sem sentido onde se nasce e espera a morte. Ela queria viver e, tal como para se morrer tem de se perder o medo de morrer, para viver, tem de se perder o medo de viver.

Por: Paulo Pais