O Alívio de Sintoma e a Cura

  • 4 Dezembro, 2017

No caso de adoecermos, para recuperarmos a saúde ou o bem-estar perdido recorremos, muitas das vezes, a um profissional de saúde. Quando solicitamos esses serviços não temos a menor ideia do que estamos a receber. Para ajudar à confusão, a maior parte dos profissionais que trabalham no ramo da saúde nunca definiram claramente que serviço estão a disponibilizar ou o que o paciente pode esperar deles. Podemos até pensar que este tipo de confusão está mais relacionado com as ditas terapias alternativas, mas por mais absurdo que vos possa, neste momento, parecer, a confusão abrange todos os pacientes e todos os profissionais de saúde, bem como com os serviços que os mesmos disponibilizam.

Estas questões nunca se colocaram antes porque está convencionado que temos saúde quando não temos sintomas e que o aparecimento de sintomas, sejam eles quais forem, deverão ser imediatamente resolvidos para recuperarmos o mais rápido possível a nossa saúde. Confundimos assim o não ter sintomas com ser saudável, e aceitamos tomar algo, nem que seja para toda a vida, para não termos os mencionados sintomas, acreditando que assim nos mantemos saudáveis.

Aceitamos igualmente, sem questionar, que quando recorremos a um profissional de saúde, por estarmos doentes ou apenas por nos sentirmos mal e querermos resolver aquela situação debilitante, vamos ter a resolução da situação. Não temos a noção que a “resolução da situação” pode ter vários entendimentos.

É comum fazermos análises, exames médicos, entre outros procedimentos de diagnóstico e ao não ser detectado absolutamente nada, termos como conclusão que os sintomas que temos são ilusórios. Quando isso acontece é desesperante, desse modo não existe forma conhecida de aliviar os sintomas, e ficamos entregues na maior parte das vezes aos ansiolíticos ou aos antidepressivos, que começam após 6 meses de toma a gerar o risco de demência. O impacto do método terapêutico aplicado no curto, médio e longo prazo raramente é tido em conta. Até podemos pensar que isso se aplica apenas ao que consideramos que não é cientificamente comprovado, mas enganam-se, por mais estranho que possa parecer nem isso fica de fora. Por exemplo, até hoje não se conhece toda a interacção, consequências e mudanças no corpo que o medicamento mais comercializado da história da medicina ocidental provoca no ser humano: estamos a falar da aspirina. Depois deste exemplo, deveríamos começar a questionar-nos sobre o nível de conhecimento que temos sobre os medicamentos em geral, quando, nem aquele sobre o qual se desenvolveu mais estudos, se consegue ter uma imagem clara sobre os seus efeitos a longo prazo. O que pensar dos medicamentos recentemente introduzidos no mercado? Nunca se questionaram sobre a razão para alguns medicamentos serem silenciosamente retirados do mercado?

Quando recorremos a um profissional de saúde esperamos que, ou nos receitem um medicamento ou nos façam uma manipulação do corpo para aliviar o sintoma. No caso de ser uma questão mais ligada aos transtornos do foro psicológico, esperamos que falem connosco ou apliquem uma técnica psicoterapêutica direccionada à nossa mente, ou então mais uma vez, a receita de um medicamento é inevitável. A última coisa que esperamos é que nos digam que não existe outra solução que não seja a operação, nessa altura perguntamos “é assim tão grave?”. Em qualquer uma das situações será que o problema fica resolvido? Ou ir-se-á transformar noutro sintoma por ventura mais grave que o inicial? E quanto tempo é que o sintoma mais grave vai demorar a manifestar-se?

Independentemente do método terapêutico usado ou do profissional de saúde consultado, a resolução do problema de saúde, seja ele qual for, só começa verdadeiramente a acontecer quando a pessoa ganha consciência e implementa as mudanças necessárias na sua vida. Se o método usado não vai na direcção de dar consciência ao paciente, o que irremediavelmente acontece é o alívio temporário do sintoma e o aparecimento de manifestações mais graves a médio ou longo prazo. A maior parte das vezes não conseguimos relacionar os sintomas que nos aparecem recentemente com os que tínhamos no passado, pois estes podem ser totalmente diferentes dos iniciais. Por exemplo: amigdalites recorrentes e tratadas sem terem em conta o médio e longo prazo podem gerar, entre outras doenças, cancro da mama ou mesmo miomas uterinos. Claro que todas as pessoas são diferentes e os sintomas a longo prazo não irão manifestar-se para todas no mesmo local, mas ir-se-ão manifestar nos elementos do corpo que estão conectados entre eles, neste caso, com as amígdalas.

O julgamento que fazemos da eficácia de um tratamento restringe-se à nossa memória e às ideias preconcebidas sobre como funciona a cura de uma doença. É comum fazermos os seguintes julgamentos. Se um sintoma reaparece no espaço temporal “que não deveria aparecer” consideramos o método ineficaz, mas se ele volta passado uns meses dizemos normalmente que temos de retornar ao tratamento que fizemos pois esse foi eficaz. Por outro lado, quando nos aparecem sintomas relacionados com uma patologia mais profunda, os quais nunca tínhamos experienciado antes, raramente relacionamos com algo mais superficial ocorrido no passado, como uma gripe tratada com antibióticos. O desconhecimento de como uma doença se instala, de como podemos tratá-la e de como a podemos resolver definitivamente, eliminando a possibilidade dela se manifestar no futuro, seja de que forma for, é transversal à população em geral, desde quem supostamente está bem de saúde, aos pacientes e chegando mesmo até aos profissionais do ramo.

Com a especialização cada vez maior dos profissionais de saúde a inter-relação e a integração do conhecimento dispersou-se. É normal alguém consultar um cardiologista porque tem tensão arterial elevada, sair da consulta com um medicamento para a redução e normalização da tensão arterial, mas ser feita uma ligação ao seu estado de ansiedade e ensinar a desenvolver processos para se acalmar, ou então fazer análises aos rins, ou então aconselhar nutricionalmente o paciente, ou mesmo fazer uma relação com o funcionamento do fígado, seria exigir demasiado de um cardiologista, pois este conhecimento abrange vários especialistas. Quem perde é o paciente que sai com uma medicação para aliviar o sintoma, mas que deixa a patologia intacta e a continuar a agravar-se, tendo como consequência situações futuras mais graves. Verifica-se assim um erro de diagnóstico grave do qual o profissional de saúde faz aquilo que se esperava dele, o paciente fica satisfeito, pois teve a suposta solução para o seu problema e com relativamente pouco esforço: a toma de um comprimido diariamente. E nem um nem outro parecem fazer a mínima ideia de que é uma solução envenenada e quando o paciente tiver um problema renal não vai relacionar com a dita solução mágica e fácil. O cardiologista, por seu turno, não faz a mínima ideia do que aconteceu ao paciente, pois agora o especialista envolvido é um urologista e o acontecimento pode estar separado uns largos anos da consulta inicial, perdendo este a respectiva evolução do paciente e as consequências reais da solução médica receitada.

O ser humano é visto como caixas separadas que podem ser tratadas isoladamente sem afectar as outras caixas, levando assim a situações no longo prazo que podem ser irremediáveis, e que se tivessem sido tratadas adequadamente ter-se-iam resolvido anos antes, não sendo necessário o paciente passar por situações extremas de mal-estar, que podem levar, nos casos mais extremos, à sua morte. Como por exemplo, uma simples dor de cabeça no imediato pode ser aliviada com um analgésico, mas alguns anos depois pode estar relacionada com uma operação cirúrgica para retirar a vesicula biliar, ou mesmo o aparecimento de situações degenerativas mais graves, como por exemplo, uma doença cancerígena.

Perante isto, dirão que sou totalmente contra certo tipo de abordagens clinicas. Não é o caso. Tenho a opinião de que todas as práticas clinicas deverão estar disponíveis para todos e o que deve existir é uma informação clara dos seus efeitos e da forma como actuam, de modo a que tanto o terapeuta que as escolheu praticar, como os pacientes que se sujeitam à sua aplicabilidade, possam escolher conscientemente. Não há um certo ou um errado, é apenas uma escolha e não existe problema nenhum se alguém está apenas interessado no alívio do sintoma no imediato. É a sua escolha e deve ser respeitada. Deve, no entanto, estar claro para si quais as consequências da sua escolha. Também não existe problema em aplicar métodos terapêuticos mais vocacionados para o alívio momentâneo do sintoma. A questão coloca-se quando se prolonga a sua aplicabilidade por tempo inadequado, sem trabalhar com o paciente para que se possa ultrapassar essa necessidade, dando-lhe robustez e estrutura para que esses sintomas já não se manifestem. Para os profissionais de saúde deverá também estar claro o tipo de abordagem clinica que praticam para que possam informar os seus pacientes das consequências do seu método.

A responsabilidade do paciente é escolher terapeutas adequados ao serviço que pretende: alívio de sintoma momentâneo ou deslocar-se no caminho da cura, estando disponível para fazer as mudanças necessárias. A responsabilidade dos profissionais de saúde é desenvolverem-se continuamente para que comecem a dar consciência aos seus pacientes e não prescrevam receitas avulso com consequências de alívio no curto prazo, que no longo prazo podem ser de cada vez mais difícil resolução.

Quando há entendimento do funcionamento do processo, das suas consequências e estão claras as responsabilidades, cada um poderá fazer a sua escolha de forma totalmente consciente e honesta. O certo e o errado não existem por determinadas situações estarem disponíveis, existem apenas quando não somos honestos connosco próprios e com os outros.

Por: Paulo Pais