O Mensageiro

  • 5 Novembro, 2018

Havia já umas semanas que aquele exercício nocturno fazia parte da rotina da Maria, dar voltas e voltas na cama para adormecer. As preocupações e a tensão em que se encontrava por não conseguir dormir, enchiam os seus pensamentos, o que não lhe permitia reparar nas várias diferenças que essa noite estava a disponibilizar relativamente a todas as outras.
Na sua infinitésima volta e reviravolta para o seu lado esquerdo depara-se com algo que não entendia muito bem o que era. Assustada, salta da cama a gritar, caindo redonda no chão depois de bater violentamente na mesa-de-cabeceira. Após alguns minutos desconcertantes, começa lentamente a recuperar do choque inicial e com alguma coragem levanta a cabeça. Sem perceber muito bem os seus contornos, do outro lado da sua cama estava um vulto impávido e sem lhe ver os olhos, sentia a pressão do seu olhar na sua pele criando um arrepio que percorria toda a sua coluna. Depois de uns segundos de silêncio que a ajudaram a recuperar a serenidade e a perder o medo inicial, tenta articular algumas palavras no sentido de perguntar quem era aquele vulto e o que estava a fazer na sua cama. No mesmo instante o vulto decide falar.

– Sei que deves estar assustada, aliás sinto-o, mas não existe motivo para teres medo seja do que for. Apesar de não me conheceres pessoalmente nós já comunicámos contigo variadíssimas vezes ao longo da tua vida. O meu nome é Sintoma e tenho por função informar-te de todas as vezes que algo não está a correr bem no teu corpo. Sou uma entidade complexa que habita dentro de ti e que nesta forma que estás a ver é o resultado de várias partes de ti, e quando voltar para dentro do teu corpo irei subdividir-me numa série de partes que se deslocarão para as suas zonas de responsabilidade. Hoje estou aqui como um todo porque tivemos uma reunião e concordámos que tinhas de entender melhor como o teu corpo funciona. Durante os teus quase 50 anos tentámos ensinar-te de variadíssimas formas, infelizmente sem grande sucesso e assim decidimos fazer algo diferente.

– Mas, mas, mas … – a gaguejar e sem entender nada do que se estava a passar Maria começa a ficar nervosa e a aumentar a frequência respiratória.

– Pára, não precisas de entrar em stress, acalma-te, respira com o teu abdómen …, isso …, vês como começas a acalmar?

Aquele vulto parecia saber tudo sobre ela inclusive o que sentia. Depois do medo inicial começa lentamente a sentir alguma empatia por ele, adquirindo à medida que o tempo passa um maior à vontade e segurança.
Percebendo que Maria se sente mais segura o Sintoma volta ao seu propósito de a ensinar.

– Sabes que me deste muitos nomes. Chamaste-me dor no joelho quando em adolescente estavas com as chamadas dores de crescimento, mas sabes que no teu caso essas dores eram apenas os teus órgãos reprodutores a tentarem ganhar maturidade, e como não lhes estavas a dar nutrientes suficientes e adequados nós resolvemos informar-te disso, criando dores que te impediam de fazer movimentos, para te impossibilitar assim de desviares nutrientes para outra actividade que não fosse o desenvolvimento hormonal saudável. Devo dizer-te que foi com muito amor que o fizemos, pois ao mesmo tempo também estávamos a sentir as tuas dores e as tuas frustrações. Não foi nada fácil, nem colaboraste um bocadinho que fosse.

– Não acredito – Maria estava incrédula – aquelas dores horríveis que me impediam de praticar dança que eu adorava, foram vocês?

– Sim – responde o Sintoma ingenuamente.

– Mas como foram capazes? Destruíram a minha carreira como bailarina!

– Pelo contrário assegurámos a tua sobrevivência e poderes ter filhos. Gostaste de ter filhos, de os criar, vê-los crescer e darem-te netos?

– Sim, isso foi das coisas mais maravilhosas que me aconteceram.

– Se não te fizéssemos parar isso não teria sido possível. Terias numa fase crítica do desenvolvimento hormonal destruído a possibilidade dos teus ovários gerarem vida.

– Mas tinha de ser assim?

– Não. Se te tivesses alimentado adequadamente e mantido uma respiração correcta, teria sido tudo tranquilo. Poderias ter tido uma carreira como bailarina e também filhos. Uma vez que não fazias as coisas certas para ti, tivemos de ser nós a decidir e achamos que os filhos seriam mais importantes. Tentámos por várias vezes chamar-te à razão, mas nunca nos quiseste ouvir, até que tivemos de tomar medidas mais drásticas.

– Começo agora a compreender – Maria parecia desanimada e num ápice revia agora toda a sua vida.

– Sim, é isso mesmo. As dores de estômago por estares a comer porcarias, as dores de dentes, as constipações e as dores de garganta, eram avisos.

– Mas eu não entendi isso dessa forma. Julgava que alguém muito mau me estava a castigar e não entendia o que tinha feito para merecer tanto sofrimento. Afinal era eu que estava a provocar esse sofrimento a mim própria.

– E não se fica por aí. Durante toda a tua vida sempre que te informávamos de algo reclamaste e não prestavas atenção, continuavas a fazer as mesmas coisas, não mudavas nada na tua vida, bem pelo contrário tentaste calar-nos. Calaste a nossa voz tomando medicamentos que ainda te intoxicavam mais, e para fazermo-nos ouvir tivemos de levantar a nossa voz criando situações ainda mais difíceis para que pudesses entender. Chegaste mesmo a ir ao encontro de bruxos e adivinhos para que num estalar de dedos mágicos te aliviassem do sofrimento. Mas em vez de tentares entender o que se passava continuaste a fazer o mesmo, ou pior, calavas-nos amordaçando-nos e isolando-nos de tudo, e ainda reclamavas da tua vida sem perceberes que apenas te estávamos a informar que o caminho que estavas a fazer não era o mais adequado para ti e para o teu corpo. Tentaste matar o mensageiro várias vezes. Lembraste quando tiveste cancro da mama? E tal como das vezes em que tinhas uma enxaqueca, ou a dor no joelho, ou mesmo quando o médico te disse que eras diabética, parecia teres um orgulho enorme nisso, vangloriavas-te perante os teus amigos e familiares do que te estava a acontecer, como se fossemos um troféu, referindo que não suportavas mais o que te estava a acontecer, reclamando que tivessem pena de ti. E quando foste ao médico porque tinhas várias dores nas articulações e ele te disse que tinhas artrite reumatóide, até pareceu ficares contente, pois tinhas deixado de ser a Maria para seres a Artrite Reumatóide.

– Porque que me estás a castigar desta forma?

– Eu não te castigo, eu estou apenas a informar-te de que algo está errado no teu corpo. Terás de mudar o modo como vives a tua vida, o modo como lidas com as tuas emoções, o modo como te respeitas, ou mesmo o modo como lidas com o teu dia a dia e a congruência da tua vida. Exactamente o que tens de mudar não sabemos, essa parte é da tua responsabilidade, nós apenas te estamos a informar de que o caminho que estás a fazer está cheio de obstáculos e de buracos.

– Mas o que é que eu vou mudar?

– Podes começar pela tua alimentação, pelo modo como organizas a tua casa, o modo como lidas com a tua família e com as pessoas ao teu redor, aprenderes a lidar com as tuas emoções e pensamentos, prestar atenção aos teus medos e estar interessada em ultrapassá-los, olhares para as situações que sentes ou sentiste culpa, vergonha ou tristeza, onde não és honesta contigo própria, e por último, modifica a tua forma de olhar para as coisas, valoriza mais a tua felicidade em vez do julgamento dos outros, e das coisas materiais e efémeras.

– Isso é muita coisa! Já não tenho vontade para mudar nada disso!

– Então cabe-nos informar-te que te vamos continuar a manter-te acordada e deves aprender a agradecer por nos mantermos nessa função tão ingrata de falar para alguém que não nos quer ouvir.

– Mas isso é estúpido.

– É tão estúpido como aquilo que tens feito da tua vida e tão estúpido como me atribuíres a mim a doença quando eu sou só o sintoma. A doença és tu.

Nesse instante o Sintoma desaparece e Maria sente um arrepio no seu corpo deixando-se adormecer de imediato. Acorda no dia seguinte com a sensação de que tinha tido um sonho muito estranho e com uma frase na sua cabeça que a não largava: “Vou deixar por uns tempos de te informar para que possas fazer as mudanças que precisas, mas se não fizeres nada voltarei ainda com mais força, tornando a tua vida tão difícil, que a única opção será mudares, pois já estamos fartos de não nos ouvires”.

Por: Paulo Pais