Quem queremos Ser

  • 6 Janeiro, 2016

– Mestre, Mestre!

– Sim?

– Penso que já percebi.

– O que é que já percebeste?

– Essa coisa do Ser Quem Eu Sou.

– Óptimo!

– Mas estou com um problema. Sempre que penso nisso, a única coisa que vem até à minha mente são pensamentos e imagens de ódio, raiva, ira, cólera. E não consigo sair dali!

– Isso é óptimo! Para “experienciares” e sentires quem realmente és, primeiro tens de sentir quem não és. Todas essas imagens e sentimentos são tudo aquilo que não és.

– Mas eu não quero tomar contacto com essas coisas!

– Pois é, mas vais ter de o fazer se queres realmente Ser Quem Tu És. Considera-o como uma limpeza da mente. Tudo aquilo que viveste e criaste que não está mais em sintonia contigo. Deixa vir como se fossem nuvens passageiras, não te fixes nelas, deixa-as passar.

– Mas Mestre é difícil! Eu quero pensar positivo.

– Ter intenção e pensamento positivo é óptimo, mas isso não serve de nada se não começares a enfrentar e a resolver os teus medos e bloqueios internos. Se construíres a casa pelo telhado não estarás a respeitar-te e a respeitar todo o teu ser.

– Mas estás a tornar as coisas ainda mais complicadas.

– Vou contar-te uma estória.

Era uma vez um lavrador que estava mesmo descontente com a sua vida. Lamentava-se continuamente. As colheitas tinham-se perdido, a mulher tinha-o deixado, até o cão, que o acompanhava havia uns dez anos, tinha-se evaporado sem deixar rasto. Desaparecera naquela noite de trovoada em que parecia que o céu lhe ia cair na cabeça. O lavrador dirigia-se sem saber bem para onde, não conseguia estar mais em casa e resolvera caminhar. Ele estava naquele caminho, quando resolve parar para descansar, sentando-se perto de uma árvore. Enquanto ele está a remoer naqueles pensamentos aparece na sua frente um vulto, parecia ter um certo brilho e muitas cores. Depois do primeiro susto e ainda com os braços a proteger-lhe a cabeça, resolve perguntar:

– Quem és tu?

– Sou a tua Fada dos Desejos! Tudo aquilo que sentires, realizarei.

– Espero que não leves muito a sério aquilo que sinto.

– Pelo contrário, levo mesmo muito a sério!

– Estou a sentir-me tão mal que até pareço um sapo. Ando e coaxo como um sapo. É assim que eu me vejo e é assim que eu me sinto.

– Pára com isso, pára! Isto está difícil de aguentar…

– Mas eu não consigo parar. Quanto mais digo que não quero pensar nisto, mais forte isto fica!

– Pára, pára! Eu não estou a aguentar mais, não, nãããããããooooooo…

De repente ouve-se um PUF! seguido de um grande estrondo e naquele sítio perto da árvore onde o lavrador se encontrava, saltitava desajeitadamente e coaxava, para quem quisesse ouvir, um sapo.

 

– Mestre, mas e depois, ele voltou?

– Não.

– Então ele ficou como sapo a vida toda?

– Sim. Como sapo não tens consciência de quem és, nem sabes muito bem onde estás. Apenas saltitas e coaxas.

– Não é justo termos uma fada dessas!

– Sabes a vida não é justa, é apenas aquilo que tu quiseres que ela seja. Mas não te preocupes. Como sapo tens muitas utilizações e muita gente à tua procura.

– Sim… Agora não percebo.

– Ainda não viste aqueles anúncios com sapos? Sapos que precisam de pastilhas para a tosse, sapos com azia e sapos que viajam para todo o lado à velocidade da internet. Até te digo mais, como sapo podes ser convidado para ficares à porta de casa das pessoas, afastas visitas indesejadas! E se te transformasses num sapo seria o máximo. Podes ter isso tudo e ficar à porta da tua casa.

– Mestre, não percebi. Foste muito rápido…

– Se parasses de usar o telemóvel enquanto falo talvez me tivesses escutado!

Por: Paulo Pais in “Conversas com o Mestre”