A Fúria do Açúcar

  • 2 Janeiro, 2019

Os tempos actuais regulam-se essencialmente pela existência de prazer. Deslocamo-nos compulsivamente na direcção de algo que nos traga deleite. Dessa forma, transformamos continuamente movimentos naturais de regulação do corpo, da mente e do ser em geral, em vícios e dependências, que chegam a ser desestruturantes, e na sua generalidade, pouco saudáveis. Algumas manifestações como, fumar, consumo de álcool ou o consumo recreativo de drogas identificamos imediatamente como desadequados e pertencente ao grupo das que geram doenças, mas outras como, viver para comer, ingestão de doces e açúcar em geral, a dependência do café, a dependência de medicamentos, a dependência do jogo ou dos jogos virtuais supostamente inocentes disponíveis em todo o lado, a dependência dos outros, a dependência de relacionamentos amorosos, a dependência dos pais, a dependência dos filhos, a dependência da televisão, a dependência do desporto, a dependência de estar sempre a movimentar-se ou a fazer alguma actividade, a dependência da adrenalina, a dependência do dinheiro, a dependência do julgamento dos outros, a dependência do conflito, a dependência da culpa e do ressentimento ou mesmo a dependência compulsiva do acto sexual, para além de outros, a lista é interminável, passam muitas vezes despercebidos.

Fazemos, na realidade, tudo e mais alguma coisa para escaparmos do vazio e tédio que nos persegue, arranjando actividades que nos tragam prazer ou fuga de algo que nem sabemos exactamente o que é, pensando que isso nos vai trazer momentos de alegria e felicidade.

E é exactamente neste ponto que penso estar a grande confusão.

Confundimos prazer com felicidade.

Achamos que são a mesma coisa, pois foi isso que nos ensinaram a vida toda, ter prazer é sinónimo de felicidade, pois a felicidade é algo efémero e que dura breves momentos, que coincidem exactamente com a altura que estamos a ter prazer. Nunca, para nunca ser, pensamos que felicidade pode ser algo diferente e que ao contrário do prazer, pode manter-se por largos períodos mesmo que não haja sensação de “gozo”.

Vemos a vida como fogo de artifício, enquanto as luzes explodem no céu escuro, a alegria e a felicidade transborda, e gostaríamos que aquele momento durasse a vida toda. Invariavelmente este acaba e temos de voltar para a nossa “vidinha” vazia sem fogo, sem paixão, e para o escuro do vazio que temos dentro de nós e que iremos encher com a próxima actividade efémera que, nos desvia a atenção desse poço sem fundo. Enquanto um momento de prazer termina e o outro começa existe uma folga de prazer, para não corrermos o risco de cair no vazio, planeamos o próximo momento até ao mais ínfimo pormenor para que a mente esteja ocupada e não caia na desgraça de entrar naquele poço sem nada. A questão destas actividades é que são breves e a maior parte das vezes sem sentido, tornam-se rapidamente rotina e saturam, tendo que encontrar algo cada vez mais forte, ou então novo, que preencha o tal espaço que existe dentro de nós. Persistimos, quais ratos presos numa roldana forçados a correr sem parar e insistindo incessantemente em encher esse escuro que mete medo, com algo que por ser desadequado não cumpre a função para a qual é requerido. Nem por momentos pensamos que a única coisa que se encaixa nesse buraco somos nós próprios, e que para que esse encaixe aconteça, precisamos primeiro de esvaziar o poço sem fim, tomando contacto com tudo aquilo que, por desconhecimento do significado que o vazio que sentíamos tinha, fomos colocando lá dentro.

Se tivermos uma criança com problemas de saúde que não lhe permitam consumir qualquer tipo de doce, os pais ficam em choque, pois os momentos de felicidade daquela criança terminaram e é como se fosse uma vida sem sentido. Como é que a vida daquela criança irá ser dali para a frente sem qualquer momento de prazer, não ter algo que lhe adoce a vida? Esta situação demonstra bem o conceito e estilo de vida actual.

Quando nas escolas perguntam às crianças, o que elas querem ser quando forem grandes, invariavelmente respondem, médicos, contabilistas, engenheiros, etc…, como se isso fosse exactamente aquilo que quando crescerem irão ser. Ninguém responde: ser feliz. Os pais não os ensinaram a serem felizes, ensinaram-lhes a fazerem actividades, algumas sem sentido, mas de preferência que tragam dinheiro, para poderem ter momentos de prazer e assim serem felizes. Transformamos deste modo a vida em: momentos que têm de existir porque estamos cá e em alguns momentos de prazer. Dependendo da quantidade de dinheiro que se tenha disponível, pode-se controlar a proporção de um relativamente ao outro, isto porque o prazer compra-se. Sermos felizes nunca se coloca porque achamos que isso são os momentos de prazer, o que ainda não descobrimos é que, tal como o amor, a felicidade não se consegue comprar, pois vem de dentro de nós, descobre-se entrando em contacto com aquele espaço escuro do qual fugimos a vida toda.

O prazer é algo fugaz, faz parte da vida e pode dar-nos momentos de profunda satisfação e alegria, mas regularmos a vida por esses momentos é doentio.  O prazer é algo imediato e normalmente fácil de obter, assim vemos no prazer a felicidade fácil sem pensarmos nas consequências, até ficarmos dependentes desses momentos que fomos colocando na vida. Em vez de aprendermos conexão, aprendemos a ampliar a desconexão, até ao limite de uma overdose, de uma dependência qualquer, os doces também contam para tal, a diferença está apenas na duração e na intensidade do sofrimento até à morte.

O que está por detrás desse modo de viver está relacionado com algo que é inerente ao ser humano e à sua forma, a desconexão consigo próprio. Os animais estão totalmente conectados e por isso comem para viver, e são felizes fazendo actividades simples e de rotina que são essenciais ao seu bem-estar vivendo a vida pela vida, inclusive a relação sexual é naturalmente regulada por um objectivo claro, que é a reprodução, são felizes e as actividades, sejam elas quais forem, trazem-lhes a felicidade de viver. O ser humano é um animal especial no planeta, vem para aprender, e essencialmente vem para fazer algo único, aprender a conectar-se consigo próprio. Os animais nascem quase autónomos ou em pouco tempo autónomos, enquanto o ser humano para além de aprender a sobreviver, ainda tem de aprender autonomia, responsabilidade, capacidade de decisão, respeito mútuo, sendo este ensino a principal função dos pais. Quando a criança aprende a fazer isso, aprende naturalmente a conectar-se consigo própria e a ser feliz. O que deveria fazer parte de uma educação básica, deixou de ser ensinado e em vez disso ensinamos dependência e prazer. Como os pais não sabem ensinar autonomia, responsabilidade, capacidade de decisão e respeito mútuo, ensinam substitutos doentios que resultam em saltar de prazer em prazer, de doce em doce, de programa de televisão em programa de televisão, ou de site de internet em site de internet, fugindo continuamente a enfrentarem o vazio resultante da desconexão. Quando alguém tenta resolver esse vazio e ir na direcção contrária, automaticamente o mundo à volta parece dizer –  “pára com isso estás no caminho errado” – como se isso colocasse em causa o poder estabelecido.

O mais importante ainda para o próprio é que para se conectar, vai ter de lidar com tudo aquilo que colocou no poço infindável para ocupar o medo de entrar em contacto consigo. A conexão não é possível enquanto existirem medos, julgamentos, expectativas, culpas, ressentimentos, faltas de respeito por si, ideias preconcebidas de si ou mesmo impostas pela sociedade e dependências seja de que ordem for. O próprio processo de conexão obriga a ter de lidar com todas essas situações, e a beleza de tudo isso é que, a conexão é feita ao ritmo de cada um e as várias situações “problema” serão progressivamente apresentadas ficando disponíveis para as solucionar, para tal, passar mais tempo consigo é essencial, para que esse vazio se torne cada vez menor levando finalmente à conexão e a viver a felicidade de viver.

O ser humano ao estar desconectado de si permite-lhe ter uma responsabilidade maior no planeta, ganhar consciência global e ao mesmo tempo aprender a atingir a conexão consigo próprio. Os animais por estarem automaticamente conectados não lhes é permitido terem consciência global mantendo-se apenas pela consciência local, estão sempre em modo de sobrevivência. O ser humano é o único que pode adquirir consciência global e isso é aquilo que lhe permite conectar-se consigo. O desafio é maior, mas é a nossa missão no planeta, para o poder elevar a níveis de funcionamento mais amplo e de maior respeito mútuo.

Devido à desconexão sentimos continuamente um vazio que tentamos preencher com algo, daí o aparecimento de comportamentos que preencham esse “buraco”, pois entrar em contacto com esse vácuo é desconfortável. Invento e crio oportunidades que me afastam desse espaço desconhecido.

Se alguém quiser encontrar a solução para os problemas da humanidade, ou mesmo para a sua vida, deverá questionar de forma aberta, até ao limite e sem medo das respostas, e para surpresa sua encontrará no final como causa raiz para todos os males –  o fugir compulsivamente da conexão consigo próprio.

Se permitíssemos a conexão começaríamos a mudar muitos processos e padrões  actuais que levam ao conflito, ao medo, ao controlo, à falta de respeito, entre outros e passaríamos a ter acesso à verdadeira felicidade e ao amor na sua plenitude, desvanecendo-se as dependências, o desaparecimento de vidas sem sentido, a substituição dos processos de doença pelos processos de cura, à instalação da paz e do respeito mútuo a nível planetário.

Se estivermos dispostos a parar de reclamar da vida e a fazer algo por ela, então vamos ter de enfrentar esse vazio e parar de enchê-lo com “porcarias” que só evitam que a conexão aconteça, para passarmos a sentir a felicidade a percorrer todo o nosso corpo.

O vício, a dependência, o prazer compulsivo e doentio manifestado seja de que forma for, nascem a partir da desconexão, tal como o medo, a culpa, a raiva e o conflito. Se queremos conectarmos connosco próprios toda a situação de dependência tem de ser eliminada, o que até pode ser assustador pois significa que temos de encarar algo que nos é difícil, estarmos sozinhos e a dependermos apenas e só de nós. Significa que não vamos compensar esse vazio com coisas que nos transmitem conforto ou prazer, vamos ter de passar por ele para perceber que afinal nunca estamos sozinhos, pois a conexão connosco próprios mostra exactamente isso e permite-nos ver que todos somos um e um só e estamos todos conectados.

Quanto ao prazer, comam uma fatia, não precisam de querer comer o bolo todo, e entendam que onde estão é exactamente onde devem estar.

Por: Paulo Pais