O Antropólogo que não sonhava

  • 22 Outubro, 2017

Qual o sentido de procurar o sentido de uma existência cujo único sentido é a própria existência?

Esta questão vivia na mente de João Pedrogão desde que, num dos seus passatempos preferidos de folhear livros ao acaso nas livrarias que aleatoriamente encontrava nas suas viagens, parou na página de um livro de que nem memória do título tinha, e onde se podia ler:
“Todas as estradas são em si iguais, não levam a lado nenhum. Existem no entanto estradas que têm um coração, e outras que não o têm. Escolher a estrada que tem coração torna a vida cheia, as outras tornam a vida vazia e escura, parecendo uma maldição, tornam-nos débeis, e sem capacidade para aproveitarmos a viagem”.

Para ele que tinha dedicado toda a sua vida a viajar e a conhecer culturas pelo planeta, aquela frase fê-lo questionar uma serie de decisões da sua vida, acabando por ficar bloqueado neste ultimo pensamento sobre o sentido da sua existência.

João aparentava não ter mais de 30 anos apesar de já andar perto do cinquentenário. Era antropólogo e tinha dedicado toda a sua vida a estudar o Homem. Pelo meio, e ainda com esse objectivo, apesar de nunca ter exercido, licenciou-se em medicina chinesa durante a sua estadia na China. Falava vários idiomas nacionais e alguns dialectos locais. Encontrava-se numa fase da sua vida em que tinha finalmente decidido escrever a sua tese de doutoramento baseada nas suas experiências de vida com diferentes culturas do planeta. Por opção nunca se casou, pois não tinha tempo para amores ou para cuidar de filhos e muito menos para rotinas que bloqueassem o seu objectivo de vida principal: descobrir o sentido da vida e como o ser humano se organizava nos variadíssimos ambientes e culturas do globo.

Das muitas experiências vividas a que mais o marcou foi numa pequena aldeia dos Andes em que os habitantes o acolheram muito bem, mas o mantiveram separado da vida da aldeia até ao dia que mudou para sempre a sua perspectiva de vida. Depois da primeira semana de apresentação aos aldeões, estes começaram a perguntar-lhe o que é que ele tinha sonhado, ao que invariavelmente respondia “nada, eu raramente sonho”.

Esta pergunta repetia-se por todas as manhãs e sem notar, de uma forma muito suave, iam-no deixando isolado das actividades da aldeia. As pessoas olhavam para ele de forma estranha, até que numa bela manhã, já desesperado e começando a colocar em causa a sua permanência naquela aldeia, pois não estava a conseguir fazer aquilo que era o propósito maior da sua estadia com aquele povo, finalmente ao acordar lembrava-se do sonho que tinha tido. Logo pelo pequeno-almoço já a senhora da casa onde dormia lhe estava a perguntar, como habitualmente, o que é que ele tinha sonhado e pela primeira vez ele tinha uma história para contar.

Como por magia os sonhos começaram a acontecer todos os dias e ao fim de uma semana foi convidado para a reunião diária da aldeia. Quando entrou na reunião a surpresa foi enorme! Todos os habitantes da aldeia estavam ali e o melhor de tudo era o tema da reunião: os sonhos que cada aldeão tinha tido. Todos contavam o seu sonho. Quando isolado estes pareciam muitas vezes sem sentido ou incompletos, mas quando todos falavam sobre o que tinham sonhado, o sonho ganhava amplitude e significado.

A partir desse dia a vida na aldeia transformou-se. Começou a sentir-se feliz e foi com muito sacrifício que chegou o dia em que teve de ir embora para poder cumprir o seu plano de viagem pelo mundo. Se não tivesse esse plano teria garantidamente ficado por lá e tal como as coisas estavam a caminhar teria casado com uma aldeã solteira e em idade casadoira, e, por incrível que isso parecesse, sentir-se-ia feliz se tivesse decidido dessa forma. Aquela aldeia era diferente das outras onde já tinha vivido, os aldeões eram genuinamente felizes e nunca mostraram grande interesse por saber quem ele era e como era o sítio de onde ele vinha e, de um modo insuspeito, parecia que já sabiam.

A reunião que mais o marcou foi relacionada a um sonho que ele tinha tido e que, enquanto o descrevia, aqui e ali, esboçavam-se sorrisos nas faces ingénuas dos aldeões, mas quando todos terminaram de falar sobre os seus sonhos, o sentido do seu próprio sonho surgiu, como por magia, bem à sua frente.

Durante grande parte desse sonho ele via-se num caminho com uma mochila às costas. O caminho ia mudando ligeiramente ao longo do sonho, mas ele não saía daquele trilho até chegar a um local onde existia um homem encapuçado e a quem ele conseguia ver nem a cara nem os olhos, mas sentia o olhar frio que lhe penetrava os ossos. Sem lhe dizer absolutamente nada, o homem retira da bancada que estava à sua frente e ao lado de um portão, uma pá e uma picareta. Agressivamente atira-os para as suas mãos dizendo-lhe “depois desse portão tens um campo para explorar da forma que tu quiseres e até podes lá ficar toda a tua vida”. Nesse momento ele acorda assustado.

Quando começa a ouvir os sonhos dos aldeões o seu sonho ganha um sentido inesperado. O aldeão seguinte que iniciou a descrição do seu sonho começa por dizer que estava perto de um portão que abria e fechava conforme chegavam pessoas para entrarem. Esse portão pertencia a uma aldeia de proporções a perder de vista com construções enormes. As pessoas entravam e escolhiam as ferramentas que queriam levar, ele apenas lhes dizia onde é que eles as podiam encontrar. Quando ele tentou entrar pelo portão não lhe foi permitido a entrada e nesse preciso momento acordou.

Quando ele terminou a sua descrição já todos falavam uns com os outros sobre os dois sonhos e o que eles significavam. João não percebia nada do que eles diziam, era como se estivessem a falar uma língua que ele não entendesse, apesar de perceber todas as palavras, elas não se encaixavam no seu entendimento. Enquanto ele se debatia com as suas dificuldades de percepção da mensagem o aldeão seguinte já estava a descrever o seu sonho. A maior parte das descrições dos aldeões eram imagens de prédios que eles nunca tinham visto e de pessoas que eles não conheciam que se deslocavam sem sentido para um local dessa aldeia.

As descrições ainda ficaram mais curiosas quando um dos aldeões começa a descrever o seu sonho referindo que ia com um amigo e que esse amigo se deslocava para um campo aberto e levava consigo uma pá e uma picareta. Quando ele chegou a esse campo percebe que existem lá mais pessoas e que estavam todas escavando um buraco redondo como se fosse um poço. Ele não queria acreditar que aquela pá e aquela picareta eram para abrir um poço. Ele e o amigo começam a perguntar aos outros que já lá estavam a escavar, qual a razão para estarem a abrir buracos e quem lhes tinha dito para fazer aquilo. A resposta era invariavelmente “não sei, quando aqui cheguei estavam a abrir buracos, perguntei se podia ajudar e disseram-me que sim, que poderia ajudar abrindo o meu”. Quando lhes propunham sair dali, ficavam cheios de medo e recusavam-se a fazê-lo, pois poderia ser perigoso. Quando o aldeão refere que se queria ir embora, mas o amigo que o acompanhava decidiu ficar e abrir o seu próprio buraco, lutou com ele para que ele viesse embora, puxando-o, mas o amigo foi mais forte e ficou no buraco que começara a abrir. João percebeu claramente que o amigo daquele aldeão era ele, mas não conseguiu entender o porquê de querer abrir o buraco e não se vir embora. O que é que isso significava?

Nas descrições dos sonhos dos aldeões seguintes tudo parecia ainda mais estranho. Muitos deles tinham passado os seus sonhos a chamar pessoas e houve um que sonhou que estava a tirar pessoas da terra como se fossem cenouras, mas que não conseguia porque estavam presas a algo. Tinha feito isso todo o sonho até ficar exausto e dormir. Ao adormecer começou de novo a sonhar que chamava pessoas que estavam a ir para dentro de uma caixa e que passavam por muitos tubos e que saiam depois noutra caixa, mas já não eram os mesmos. Quando saiam estavam velhos e andavam às voltas de cadeiras, jogando um jogo. Ele tentava falar com elas, mas não o queriam escutar, nem aqueles que entravam na caixa, nem aqueles que saíam. Apenas se interessavam por jogar aquele jogo enfadonho e repetitivo.

Quando todos acabaram de contar os seus sonhos começaram a discutir sobre o que é que a aldeia tinha sonhado. Para todos tinha sido uma experiência estranha que nunca antes tinham tido. Muitos deles identificaram que sonharam com o mundo do João e que estava de algum modo relacionado com a vida e o sentido daquilo que, tanto o João como os habitantes do mundo dele faziam.

Para o João, de facto, aquela noite de sonhos tinha sido dedicada à sua vida, e percebeu que a decisão de como viver a vida era dele e que apesar de tentar viver a sua vida de modo diferente das outras pessoas acabou igualmente desconectado de todos.

A desconexão é um dos temas mais importantes da sociedade actual e que vem aumentando ao longo dos séculos. O isolamento leva a que cada um escave o seu próprio buraco, sem sentir algum significado na sua vida. Os membros das famílias não falam uns com os outros. As pessoas do mundo moderno fecham-se nas suas casas e não comunicam com outras pessoas para além do trabalho. Substituíram a comunicação e o relacionamento com outras pessoas pela televisão e pelas redes sociais, isolando-se cada vez mais. O problema das adições, sejam de drogas, seja do açúcar, seja dos jogos, seja do álcool, seja da realidade virtual, seja que adição for só existem porque existe desconexão. João percebeu finalmente que para a vida ter sentido era necessário que as pessoas sonhassem e pudessem falar sobre os seus sonhos, e que só quando todos falavam sobre os seus sonhos é que eles ganhavam espessura e significado. Quando adormecemos podemos sonhar ou não, mas independentemente do que aconteça não estamos sozinhos e é nos relacionamentos e na partilha da vida que ela começa a fazer sentido, inclusive nos sonhos.

A tese de doutoramento do João era sobre tudo aquilo que ele tinha aprendido nestas suas viagens. Falava sobre os alicerces falsos em que a sociedade moderna sustenta o seu funcionamento, no conceito da linearidade do pensamento, da desinformação do excesso de informação, do consumismo sem sentido, do princípio causa-efeito e do “só existe aquilo que se consegue medir” do pensamento cientifico actual. Apesar dos benefícios e do salto qualitativo da vida em geral, esses conceitos não foram capazes até hoje de nos fazer compreender ou de dar respostas a questões aparentemente tão simples como: “o que é, afinal, a matéria?” e “qual o sentido da vida?”.

João debatia-se internamente com o dar coerência à sua vida, enquanto escrevia a sua tese. No meio desse turbilhão, os factos e experiências das suas viagens bem como a análise da história da humanidade mostravam-lhe que ele estava a resistir a uma mudança profunda do seu ser. Ao longo da história da humanidade as maiores evoluções deram-se quando o Conhecimento se aliou ao Ser. Quando um prevalece sobre o outro aparece, por um lado, o caos das superespecializações, da anatomização de partes mortas e desligadas, do conhecimento vácuo e estéril pouco útil para a vida, e do lado oposto, o caos do mistério, do esoterismo e da superstição.

Saber integrar as várias faces da mesma moeda poderia ser a estrada onde a humanidade uniria sentir com ser e com saber, elevando consciências, onde a viagem tem um sentido mais amplo, permitindo que conhecimento, maturidade, crescimento humano e visão alargada da realidade caminhem juntos nessa estrada cheia de coração e amor, em que a saúde e a cura prevalecem.

Afinal, existir não tem a ver com o campo onde se encontra espaço para abrir o nosso buraco, desconectando-nos dos outros, mas sim com o caminho de chegada e de saída desse campo. Ficar no campo a escavar buracos ou continuar a fazer a viagem é uma decisão da responsabilidade de cada sonhador deste planeta. Cada sonhador tem a responsabilidade de falar sobre os seus sonhos e quem sabe, quando todos os sonhos se juntarem o sonho ganhará sentido.

Por: Paulo Pais